Vai longe o ano de 1199 quando, a 27 de Novembro, através de carta foral, D. Sancho I ordenou a fundação da cidade da Guarda.

No alto da montanha a nova urbe surgiu como centro de defesa da fronteira de um interior tantas vezes assaltado pela fúria de homens armados vindos do centro da Península Ibérica, dos reinos de Leão e Castela.
No intuito de dar maior importância ao burgo, seguiu-se a transferência da sede episcopal da antiga Egitânia para a Guarda.
Com o passar do tempo, a cidade mais alta, qual sentinela vigilante, conquistou prestígio e admiração atraindo gente de todas a classes sociais. A Guarda afirmou-se como centro bélico, económico, administrativo, cultural e religioso.
Ao longo dos séculos foram surgindo construções robustas de granito, em que se destacam, entre tantos outros, a Sé Catedral, o Seminário Tridentino (actual Museu e Paço da Cultura), o Convento de S. Francisco (que alberga o Arquivo Distrital e serviço de Finanças).
O progresso foi conquistando a montanha, cada vez mais moldada por casas de todas as formas e feitios.
Nas acessibilidades, as novas vias rodoviárias e ferroviárias encontraram na Guarda ponto de convergência, a caminho de uma Europa cada vez mais próxima e ainda tão distante. O tecido empresarial cresceu com as fábricas de lanifícios e de construção automóvel. Ao parque industrial seguiu-se a tão esperançosa Plataforma Logística de Iniciativa Empresarial que tem ficado aquém das espectativas.
Surgiram escolas por todas as aldeias e, depois do Ensino Secundário, a Guarda rejubilou com o Ensino Superior. Apareceram equipamentos culturais que ainda hoje se destacam a nível nacional pela programação arrojada e diversificada. Ao Santório, que acolheu doentes de todos os pontos do País, seguiram-se novas unidades de saúde. A Guarda parecia encaminhada para um futuro promissor capaz de vencer os desafios da interioridade.
O final do século passado começou a ditar o encerramento de escolas, empresas e serviços. A debandada de homens e mulheres no vigor da vida, tanto para o litoral como para o estrangeiro, acabaria por provocar o despovoamento da maior parte das aldeias do concelho.
A herança de um passado notável e grandioso parece definhar a cada ano que passa. A falta de visão estratégica, principalmente dos decisores políticos nacionais, acaba por criar grandes assimetrias.
Que importa ter boas acessibilidades se depois não são utilizadas, devido aos grandes encargos com as portagens? Que importa ter equipamentos culturais se não se criam condições para fixar os jovens?
Mas, ainda bem que há resistentes. Ainda há quem acredite que é possível transformar as adversidades em oportunidades.
Louvamos o aparecimento do Movimento pelo Interior, que tem no presidente da Câmara Municipal da Guarda, Álvaro Amaro, um grande impulsionador. O relatório final está pronto e foi apresentado em Lisboa com 24 medidas para a valorização do Interior, nas áreas de política fiscal, de educação e de ocupação do território pelo Estado. Para ter mais força devia ter sido apresentado na Guarda ou em qualquer outra cidade do interior.
Justiça seja feita ao programa Prós e Contras da RTP 1 que vem, no dia 28 de Maio, ao Grande Auditório do Teatro Municipal da Guarda, para debater o tema “O interior primeiro!”.