A visão do futuro, do nosso futuro, paira na incerteza nebulosa dos tempos a vir

dependentes de variadas circunstâncias efectivadas quer pela natureza ou  ambiente quer decidido pela nossa vontade individual e colectiva nem sempre conjugada pelos mesmos fenómenos e idêntico querer.
Uma coisa é um desastre natural, uma tempestade aterradora, ou uma guerra medonha e mortífera. Mesmo algumas intempéries já podem ser dominadas por muitas formas e até reduzidas por forças nascidas do progresso e da ciência, pois a humanidade tem o poder e o encargo de submeter a terra inteira.
Tudo isto, para compreendermos a responsabilidade das nossas atitudes, no desenrolar dos hábitos e comportamentos que manobram o próprio viver.
Um exemplo fácil de verificar é o trabalho quotidiano regulado pelas horas por nós marcadas e ainda prescrito pelas nossa leis.
Naturalmente, a humanidade precisa de trabalhar para auferir o alimento, o bem-estar e tudo quanto deseja e apetece. Também necessita do repouso, do sono, do ócio sem os quais  nem sequer poderá alongar o tempo do seu existir. O registo dos horários convenientes para isto depende, e em muito, do querer humano aceite pelas colectividades ou pelos indivíduos.
Antigamente não existiam férias como hoje. Como o trabalho se apresentava inseparável da lavoura e a produção dos frutos vinha na sua estação, tais realidades marcavam o seu ritmo e pendor. Agora, porque se mudaram os instrumentos agrícolas, subsiste-se a fazer tractores, frigoríficos e tantos outros utensílios que nos concedem mais liberdade para escolhermos os dias de férias, com mais amplidão de dias, maior escolha das épocas e dos lugares onde se possam gozar.
Com este alargamento de possibilidades, poderão escolher-se as folgas do trabalho com maior amplitude, o que nos obriga a reflectir sobre outras obrigações que pairam sobre o nosso existir.
Aqui se inscreve a família com a sua unidade, o relacionamento recíproco dos seus membros, a mútua correspondência que marca os deveres de cada um.
Hoje, a independência pessoal, a procura dos interesses individuais, a autonomia libertadora que ferve na sociedade, sem esquecer os impulsos e provocações dos outros que, por demasiadas formas, nos puxam para o passeio, o divertimento, o turismo e tantas coisas mais, vão conduzindo à desagregação da gente da mesma casa.
Em muitos lugares, pai e mãe, filhos e irmãos, avós e netos já não se encontram facilmente. A convivência, tão útil e proveitosa para o equilíbrio dos afectos, para a segurança psíquica e a interajuda nas dificuldades, vai-se enfraquecendo quando não extinguindo, deixando tanto indivíduo numa solidão, num desterro e numa ausência de consanguíneos, a tirar todo o apoio para uma hora infausta, não permitindo a aproximação e confiança tão prezadas em tempos de outrora.
Depois, perde-se o equilíbrio emocional, desaparece a amizade nas pessoas separadas e sem vontade de se verem, termina o à-vontade entre familiares e uma grande série de transtornos torna o viver destemperado, sem a ajuda de ninguém que possua o nosso sangue, pois não se cultivou mais nada que a liberdade pessoal.
Proteger os filhos, como? Reconhecer os irmãos, quando? Contar com a família de que modo? Gosto de nos encontrarmos, por onde andará?
Em muitos aspectos, a cultura contemporânea há-de ser revista e modificada para bem de toda uma sociedade que conhece pais velhos abandonados, filhos independentes a moverem-se num individualismo arrogante e desumano e a criarem uma solidão desamparada e aflitiva.
Tudo porque se aligeiraram as relações familiares, se deixaram de cumprir os deveres da convivência humana, as obrigações da gratidão pelos sacrifícios suportados em favor de quantos conviveram no mesmo lar e partilharam idênticos problemas e dificuldades.
A casa que nos reúne, que acolhe os amigos, onde se transmite a amizade de um serão, onde, nas eras antigas, se nascia, se celebravam as festas e as bodas de anos, de casamento ou de outras comemorações, onde se morria e se realizava o velório está a perder o seu significado, com as respectivas consequências.
Urge não menosprezar, pela dispersão das férias, pelos saraus multiplicados com colegas, pelos passeios acompanhados de estranhos, por viagens turísticas, na sede de tudo conhecer pelo mundo, mesmo abandonando as belezas e encantos das nossas regiões, e por tantas outras formas de alheamento, a alegria e o gosto de conviver em família.
Mesmo o trabalho não é o fim da existência e ele pode prejudicar, se não estivermos atentos, a unidade do lar, a convivência com a nossa gente, desde a educação até ao amparo tão necessário.
Aproveitar os tempos mais livres, tais são as férias, será um elemento a chamar-nos a atenção para o nosso futuro, mormente nas relações mais cordiais do nosso existir, antes que construamos um futuro sem alicerces.