Para compreendermos cabalmente o significado e finalidade da expressão misericórdia, usada pelo Papa Francisco,

ao proclamar o Ano Jubilar que vamos celebrando, precisamos de aprofundar a sua definição e esclarecer este vocábulo em toda a sua plenitude, colocando-o no contexto usado pelo Sumo Pontífice.
Na Bula da proclamação do Jubileu, apesar de bem pequena, encontramos algumas páginas a pretender iluminar o conteúdo deste termo, repetindo a história sagrada onde se relata o agir divino em relação ao homem contemplado debaixo da sua miséria e do seu pecado.
Lembra a frase célebre do grande teólogo Tomás de Aquino “É próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua omnipotência”, para logo tentar conduzir o crente, através dessas páginas santas, a indagar nos actos e nas palavras gravadas nesses Livros inspirados, onde se narram as reacções do Todo Poderoso, na perspectiva da sua bondade paciente e misericordiosa, que se repetem tantas vezes nos salmos, para que os crentes, estupefactos com tamanha clemência, as traduzam em louvores incessantes.
Para além desta contemplação, orienta a compreensão dos fiéis no sentido de copiarem o seu Criador, repetindo, na vida, os mesmo gestos e intentos dados nas suas normas.
Neste enquadramento, se colocam várias advertências ao povo cristão para, no seu viver, concretizarem um plano cheio de misericórdia, pois “a arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia”. No lema traçado para o esforço espiritual do ano jubilar aponta para os católicos a directriz já recomendada por Cristo: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso”.
De entre as recomendações propostas para o caminhar espiritual de cada fiel, a bula recorda: “É meu vivo desejo que o povo cristão reflicta, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será a maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina”.
Por entre tais obras espirituais tão recomendadas, precisamos de discorrer sobre uma obra de misericórdia tão esquecida e tão difícil para o nosso tempo. É de ordem espiritual e diz assim; “Ensinar os ignorantes”.
Se a ignorância se encontra tão difundida à face da terra e se, na sua vacuidade, ninguém quer ser chamado ignorante, torna-se demasiado difícil congregar pessoas do nosso tempo para que possam escutar os conselhos e admoestações, sobretudo quando, por esse meio, se pretende agir nos actos pessoais e interiores.
Será mais importante tomar parte numa distracção, ver um jogo de futebol, fazer largos passeios ou comprazer-se com uma das séries televisivas, pois os entretimentos estão na ordem do dia.
No entanto, há que reconhecer encontrarmo-nos num ambiente tão pouco perspicaz, mesmo frívolo e superficial, onde a construção de um mundo novo e digno se torna cada vez mais problemática. É olhar para os noticiários e reter as guerras e guerrilhas, ouvir as discussões de todo o género, atender à sociedade que nos cerca.
Quanta ignorância e incompetência enche o universo inteiro, sem pretender excluir governantes ao mais alto nível.
Certo é que o ensinar se torna tantas vezes fastidioso e desagradável até mesmo para os pais já tão cansados do trabalho quotidiano, mas sem sacrifício pouco de útil se consegue na vida. E a educação que tenta moldar a pessoa e aperfeiçoá-la aparece como um labor desmedido e sem proveito, após vermos os resultados imediatos.
Mas a desistência é algo de mesquinho e tacanho e traz as suas sequências a começar pela própria casa e família.
Ensinar os ignorantes é um dever e obrigação sem o qual o mundo humano se tornará algo de imperfeito e corrompido. E se contarmos com as más inclinações da humanidade e as suas tendências para o mal ficaremos admirados, quanto mais se observarmos os acontecimentos malfadados e perversos tornados praga da humanidade.
Ensinar os ignorantes é educar, instruir, recompor e conhecer a prática do bem, tornando o mundo mais belo e nobre.