Seria ridículo anunciar o facto que nos obrigou a tomar os relógios e atrasarmos a hora,

prosseguindo o viver com outro horário. Isso já foi dito e até realizado porque, à nossa volta, todos vivem numa contagem diferente.
O que desejava fazer notar era que o período das noites aparece diversificado. Estabelece-se uma relação diferente com a natureza na qual principiamos uma especial intimidade connosco mesmos, com a nossa família e com os amigos, pois temos mais lazer e disponibilidade, uma vez que o escuro, o descanso e o recolhimento nos envolvem.
Quando não havia electricidade, nem televisão, nem sobrecarga de diversões, nem tanto trabalho, tornava-se a convivência familiar mais fácil e natural, no inverno. Hoje, com a sobrecarga de programas televisivos, a facilidade de nos encontrarmos com os colegas ou desfrutarmos de inúmeras ocasiões de aperfeiçoamento, de distracções, de recolhimento meditativo para mirarmos a vida e repararmos nas informações dos acontecimentos particulares ou mesmo mundiais, tudo se tornou diferente. As horas podem preencher-nos o tempo e enriquecer os conhecimentos.
Por entre estas oportunidades, algumas vantagens se vão esvaindo tais como a intimidade familiar, o aconchego cordial da lareira onde ocasião havia para lembrar as tradições de outrora, o existir e os sucessos dos antepassados, as glórias e ocorrências de outras eras que nos traziam a efectivação da sentença tão importante e benéfica ainda para hoje: “a história é a mestra da vida”.
Modernamente, para conseguirmos manter estas oportunidades, impõe-se a norma de nos abstermos de coisas agradáveis para construirmos a unidade íntima da família. Perante alguns bens que se vão perdendo: conhecimento recíproco de qualidades e defeitos, de problemas e alegrias, da presença particular na mútua ajuda, da certeza da bondade mesclada entre os diferentes membros da nossa casa, da prece e formação religiosa, do discernir melhor o bem e o mal desta ou daquela acção ou costume, julga-se bom aproveitar as horas dos serões para a convivência.
O contacto simples gerido no respeito e amor entre os componentes da família que possuem qualidades e atributos, valores e pareceres diferenciados podem alcançar vantagens recíprocas para quantos possuem a graça de um convívio são e generoso, grato e amável. Quanto se aprende com a sabedoria dos avós, quando se vive na coabitação de diferentes idades, pois também os novos dão alento e esperança aos mais velhos, partilham-se, em franco e espontâneo diálogo, os diferentes pontos de vista, em rumos e vocações vividas de formas diversas.
As nossas vivências de hoje ou as recordações de ontem podem trazer-nos exemplos maravilhosos partilhados nestes actos. Quantas experiências se confirmam, quando as lembranças se repartem e as opiniões se comunicam...
Ouvir os avós, escutar os pais, inquirir as crianças e os adolescentes, perscrutar os sentimentos dos jovens, leva certamente muito tempo, mas enriquece mutuamente. Para quantos têm a dita de passarem horas e horas em comum, trocando ideias com simplicidade e estima, mesmo repreendendo-se alternativamente, com manifesto carinho, no intuito de conviverem, no facto de estarem juntos, em convívio amigável e afectuoso, será tudo isto muitíssimo enriquecedor.
O testemunho e a vivência de cada um constituirá um acréscimo de vitalidade e energia perante um viver isolado e solitário ou demasiado inquieto e confuso.
Apesar de aturdidos com tanto agitação alvoroçada, falta à gente de hoje a paz interior e a estabilidade pessoal.
Quem será capaz de evocar os longínquos serões de família, com a sua paz comunicativa, com a sua boa disposição e amizade doce e terna? Poderia haver momentos de discussão ou polémica, mas o sossego interior e a confiança recíproca sobrepunham-se a tudo.
A existência demasiado ocupada e as solicitações de hoje a convidar-nos para tantos passatempos ou ocupações podem surgir como atractivos com carácter de urgência. Mas é preciso equilíbrio, para nada se sobrepor ao amor e enriquecimento que constituem o pendor familiar que, ás vezes, pode ser aborrecido.
Ainda há dias se afirmava na aula do Sínodo: “Uma das tarefas mais urgentes para a família é a formação de conjunturas para os contactos entre as gerações”.