Liberdade ou falta dela

Desde Abril de 1974 que o povo português se habituou a celebrar todos os anos a Revolução de 25 de Abril, também conhecida como Revolução dos Cravos ou Revolução de Abril. Há 46 anos, um movimento político e social, ocorrido a 25 de Abril de 1974, depôs o regime de ditadura do Estado Novo, que estava em vigor desde 1933. Era o início de um processo que viria a terminar com a implantação de um regime democrático e com a entrada em vigor da nova Constituição, a 25 de Abril de 1976.A revolução foi liderada por um movimento militar, o Movimento das Forças Armadas, que integrava muitos dos capitães que tinham participado na Guerra Colonial e que contaram com o apoio de oficiais milicianos. Ao movimento juntou-se a força do povo e o regime em vigor até então praticamente não teve reacção. Foi uma revolução quase pacífica que, em vez de armas e sangue, vingou com o vermelho dos cravos. Na batalha pela liberdade há relatos de deportação, lágrimas e tormentos que o tempo ainda não apagou. Os mais velhos dão conta das privações e da miséria com que se debatia a maior parte do povo português. É bom, sem dúvida, poder celebrar o fim de todos estes constrangimentos. No entanto, num ano tão atípico como o que estamos a viver, não vinha nenhum mal ao mundo se houvesse um pouco mais de bom senso e ponderação sobre a maneira como a Assembleia da República pretende assinalar a efeméride. Nesta sociedade em que vivemos, onde todos temos direitos e deveres, ao longo das últimas semanas, fomos postos á prova e privados da liberdade que nos assiste habitualmente. Por força das circunstâncias fomos confrontados com proibições de vária ordem, em nome de um bem maior e comum. Não ficava mal, a quem governa, ter mais recato e moderação, mesmo na celebração de uma data como o 25 de Abril. Se assim acontecesse talvez o povo percebesse melhor, por exemplo, a proibição do acompanhamento dos seus mortos. t