Não basta, para compreendermos o mistério da incarnação, olhar o presépio e deleitarmo-nos perante o encanto promissor de uma criança.

É que Jesus Menino transporta em Si o mistério renovador da humanidade, desde o abismo da sua malícia original até à complexa questão de um mundo confederado também na sua desgraça.
O homem não é apenas indivíduo, pois tem de realizar-se num conjunto, desde o seu nascimento até à morte.
Por isso, Jesus do Natal não é apenas um recém-nascido mas alguém que transporta a missão de Salvador de toda a terra. Nesta postura, será um homem social a viver num agrupamento, participando da realidade comum de quantos pertencem à humanidade. A sua convivência familiar com a mãe, o pai e demais parentes, pois não vem redimir apenas os indivíduos, mas também a realidade social, fica para nosso exemplo.
Por esse motivo, para discernirmos a sua incumbência, hemos também de contemplar a sua família e, por ela, mergulharmos, mais e mais, no seu segredo.
No matrimónio, se efectuam as realidades mais íntimas e congénitas da vida terrestre. Aí, a pessoa concretiza a solidariedade completa tanto no bem como no mal e vive segundo as suas tendências, o seu carácter e propensões.
Se todo o homem precisa de ser libertado do mal, também o conjunto do seu existir, a família, deve ser alvo de redenção.
O Concílio Vaticano II oferece-nos as perspectivas básicas da vida familiar, através de muitos ensinamentos dispersos por diferentes documentos.
Atenhamo-nos à índole particular dos que formaram uma família: “Os esposos cristãos, em virtude do sacramento do matrimónio, pelo qual significam e participam no mistério da unidade e do amor fecundo entre Cristo e a sua Igreja, ajudam-se mutuamente a conseguir a santidade, na vida conjugal e na procriação e educação dos filhos, e têm, por isso, no seu estado de vida e missão, um dom especial dentro do povo de Deus”.
Desta forma, a própria união do homem e da mulher é integrada na realidade salva pelo Senhor que os torna habilitados, através da palavra e do exemplo, a serem para os filhos os primeiros anunciadores da fé, dirigindo-os numa educação cristã para o eterno amor.
Assim, participam com o seu próprio viver, no hossana, acção de graças e oferta de sua vida a Deus, como se fossem sacerdotes em Cristo. Segundo os dizeres do mesmo Concílio, a própria liturgia de que os casados tem direito e obrigação de assistir, lhes fará encontrar o sentido profundo e pascal de seus sacrifícios e alegrias e os levará a oferecer como matéria de sacrifício a sua própria carne, com suas alegrias e dificuldades, e também as crises do seu viver familiar Tal existência é uma liturgia viva com um ofertório recíproco entre um e outro cônjuge e também a Deus, uma consagração de todos os regozijos e amarguras e uma verdadeira comunhão dos sentimentos de ambos participados em união a Cristo.
Como base da civilização do amor, a meta fundamental deste mundo de agora, os esposos hão-de reforçar a solidez da sua caridade, na prece e contemplação do sacrifício de Cristo, tornando-se como Ele exemplo e força para os filhos, a fim de realizarem a comunicação dos dons divinos que tornam os homens perfeitos e solidários na comunidade mais alargada da grande linhagem humana.
Tendo em conta estas perspectivas, o Concílio ousou chamar ao agregado familiar “igreja doméstica”, onde o mistério comunicado pelo Senhor se realiza também como na comum e total comunidade da grande Igreja.
É também, sob a perspectiva da família de Nazaré, conforme este tempo natalício nos vai inculcando que a própria família há-de viver o Natal, recordando também os nascimentos do seu lar, o afecto vivido na reciprocidade das relações tanto fraternas como colectivas, segundo as relações próprias que cada qual tem no conjunto.
Na união recíproca e cristã se vai fomentando o amor mútuo entre os membros da família e se vai aprendendo o significado desta atitude, na entreajuda, no perdão, na conforto consolador e na alegria da convivência que depois se deve transpor para as outras relações com as gentes que nos rodeiam.
Agora, que vivemos em preparação do Sínodo sobre a família, a realizar no próximo Outubro, cujas questões principais já foram debatidas, permanecendo em aberto as suas conclusões, há que anotar quanto o Papa Francisco nos recomendou na conclusão do último Sínodo dos Bispos: “Caros irmãos e irmãs, agora temos ainda um ano para amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades e incontáveis desafios que as famílias têm de enfrentar; para dar respostas a tantos desencorajamentos que cercam e sufocam as famílias”.
Ao celebrar, nestas festas natalícias, Jesus Menino, no ambiente de seu grupo familiar, como faremos no domingo próximo, saibamos olhar para a casa de Nazaré, a fim de contemplarmos o modelo perfeito das famílias e aí aprendermos os nossos caminhos.