Na visita ‘Ad limina’ ainda há pouco realizada pelo episcopado português, o Santo Padre,

com naturalidade impressionante, referiu-se com a franqueza que lhe é própria ao problema da falta de sacerdotes verificado na Igreja lusitana, para logo incentivar os bispos a fomentarem, por todos os meios, o ressurgimento das vocações sacerdotais no seio das suas comunidades cristãs.
Depois de apontar a situação de tantos jovens que abandonaram a prática religiosa após haverem recebido o crisma, ficando privados da continuidade do aprofundamento doutrinal para os problemas da existência adulta prestes a despontar, aludindo ao vazio de oferta de uma formação paroquial que prepare os adolescentes em ordem aos problemas prestes a surgir, diz estas palavras: “Não pode deixar de nos preocupar a todos esta debandada da juventude que tem lugar precisamente na idade em que lhe é dado tomar as rédeas da vida em suas mãos.”
Depois de lembrar as dificuldades ambientais vividas pela juventude em climas a transmitirem falsas liberdades, o Bispo de Roma, referindo-se ao problema da vocação, afirma: “Ao catequista e à comunidade inteira é pedido passar do modelo escolar ao catecumenal: não apenas conhecimentos cerebrais, mas encontro pessoal com Jesus Cristo vivido em dinâmica vocacional segundo a qual Deus chama e o ser humano responde. (...) A Igreja em Portugal precisa de jovens capazes de dar resposta a Deus que os chama para voltar a haver famílias cristãs estáveis e fecundas, para voltar a haver consagrados e consagradas que trocam tudo pelo tesouro do reino de Deus, para voltar a haver sacerdotes imolados com Cristo pelos seus irmãos e irmãs. (...) Precisamos conferir dimensão vocacional a um percurso catequético global que possa cobrir as várias idades do ser humano, de modo que todas elas sejam uma resposta ao bom Deus que chama”.
Já o concílio Vaticano II falou nesta matéria em vários documentos: “O dever de fomentar as vocações pertence a toda a comunidade cristã que as deve promover, sobretudo mediante uma vida plenamente cristã. Mormente para isso concorrem quer as famílias, que animadas pelo espírito de fé, de caridade e piedade, são como que o primeiro seminário, quer as paróquias, de cuja vida fecunda participam os mesmos adolescentes”.
Aos curas de almas se dirige recomendação especial: “Os sacerdotes manifestem o máximo zelo em favorecer as vocações; e pela sua própria vida humilde, laboriosa, levada com ânimo alegre, assim como pela mútua caridade e fraterna cooperação, atraiam a alma dos adolescentes para o sacerdócio”.
Todos os anos, no nosso país se pede aos fiéis que vivam a semana dos seminários com sacrifício e oração, pedindo a Deus que mande trabalhadores para a sua ceara, a fim de se cumprir o mandato: “Pedi ao Senhor que envie operários para a sua messe, pois a messe é grande, mas os operários são poucos.”
Tem-se dito amiudadamente que quantos se ocupam da educação das crianças, adolescentes e jovens se hão-de esforçar por fomentar, no espírito dos seus pupilos, uma existência plenamente cristã atenta à inspiração divina.
Ninguém deve esquecer que desde os princípios da Igreja, a comunidade foi incentivada a escolher e a chamar quantos pareciam dotados das qualidades requeridas para condutores das almas. Na memória, estão o chamamento do Apóstolo Matias, a vocação dos sete primeiros diáconos e a de Paulo chamado por Barnabé e a de tantos outros. Na vida de muitos sacerdotes santos entregues totalmente ao Senhor, se narram os nomes de quem lhes indicou o caminho do sacerdócio.
Se o Papa achou conveniente tocar este ponto na reunião dos bispos portugueses, ninguém pode ficar desobrigado de se entusiasmar unindo-se aos entusiastas que albergam no seu íntimo tal dever, pois infelizmente somos testemunhas da grande falta de clero que atravessa a nossa cristandade.