Nem sempre a realidade litúrgica foi a mesma, durante os séculos da Igreja. Através dos tempos, foi-se modificando, em muitos aspectos acidentais, para acompanhar  o espírito religioso de cada época e de cada povo cristão nem sempre igual.


A solenidade da Páscoa, apogeu máximo das celebrações cristãs, centro e raiz de todas as festas, não tinha, nos primeiros tempos, preparação alguma. Depois, foi-se reflectindo na palavra de S. Paulo que afirmava ser o baptismo a perfeita conformação à morte e ressurreição do Senhor, e a comemoração deste acontecimento cheio de mistério foi tomando várias conotações: união com o sacramento do início da vida em Cristo, para os catecúmenos, renovação interior para os já baptizados e contemplação do ressurgimento espiritual de toda a cristandade. Desta forma, foram-se fixando os pontos mais importantes do mistério.
Desde o século II, celebrava-se a grande vigília pascal, na noite de sábado santo para domingo, na qual se realizavam as longas cerimónias dos baptismos. Mais tarde, colocava-se na quinta-feira santa, quando já havia tríduo pascal, o momento de afervorar e renovar a vida cristã. Quantos haviam prevaricado e perdido a graça divina, deviam recriar em si a grandeza baptismal, voltando ao estado primeiro da sua união com Deus. Por isso, após uma preparação longa, por vezes, na quinta-feira santa, eram absolvidos todos os penitentes, num rito demasiado longo e complicado.
Principiaram então regras para quantos eram sujeitos às cerimónias que davam a primeira graça ou a restituíam.  
“Antes do baptismo, aquele que baptiza e os baptizandos jejuem um ou dois dias” – lê-se no mais antigo catecismo da Igreja romana. Pouco tempo depois, esta exortação foi-se estendendo a toda a assembleia e assim principiou a penitência da semana que precedia a Páscoa. Em algumas regiões, nasceu o costume da renúncia ou sobriedade no que se refere aos alimentos. Esta a base da semana santa.
No século IV, em Roma, já se marcava o terceiro domingo antes da Páscoa, chamado ‘Dominica in mediana’ para se olhar para a festa das festas, com a finalidade de ser celebrada com maior purificação espiritual.
Volvidos alguns anos, a Festa, a única festa, tinha a antecedê-la seis semanas com características especiais de vida espiritual, cheias de gozo e júbilo porque estava próximo o aniversário da glória e triunfo do Senhor ressuscitado. A alegria não era, nessa altura, banida dos tempos de penitência, pois se considerava preparo para realizar com maior esplendor a glorificação de Cristo.
Só quando a lembrança do pecado e a respectiva penitência foram consideradas na meditação do Calvário, de cuja dor se impregnou o arrependimento e a mudança de vida, os textos litúrgicos foram compreendidos não como o júbilo do regresso à casa paterna, segundo a parábola do filho pródigo, mas como o arrependimento amargurado. Assim, a Quaresma foi considerada tempo de padecimento, mortificação, amargura.
Ainda nessa época, com o desejo de maior penitência, se alargou a quarentena acrescentado-se mais uma, duas e três semanas, donde a quinquagésima, a sexagésima e a septuagésima, caídas em desuso só após o concílio Vaticano II.
Como o ano litúrgico tomou para os domingos fórmulas diferenciadas, de leituras bíblicas conforme os Anos A, B e C, cada um deles recebeu perspectivas próprias: para o Ano A apontou-se a ordem dos catecúmenos, para o B,  a renovação da cristandade, olhando o tema da Aliança entre Deus e a humanidade, para o C fixa-se na estímulo da conversão em ordem ao renovamento de todos os crentes.
É claro que os ensinamentos dos dias feriais, dias da semana, alargam e aprofundam estas matérias, levando-nos a considerar a palavra de Deus, que nos conduz à reforma de viver, com o perdão a conceder aos outros para que Deus nos perdoe também, a renovação da vida espiritual no propósito de continuarmos o afã da purificação em ordem à santidade.
Deste modo, voltaremos ao início da nossa união com Cristo, retomando o trabalho da santificação contínua. Assim a Quaresma renovará o nosso espírito não apenas no interior de nós mesmo mas ainda no relacionamento de caridade para com os outros.
Para incentivar esta obra no próprio interior apontam-se as grandes tarefas e atitudes de penitência: oração, jejum e esmola sempre apoiados na recordação da palavra de Jesus, cujo evangelho nos convida a segui-l’O, com todas as veras do nosso esforço.
Considerada deste modo a Quaresma será o tempo mais propício para, em conjunto, nos purificarmos e nos tornarmos mais cristãos.
“A festa da Páscoa está próxima” - tal é a jubilosa mensagem desenvolvida tanto no culto oficial como nas tradições religiosas e populares, para adentrar o povo nos mistérios do Reino e na contemplação do amor divino que sempre nos salva.