Na noite das eleições estava especialmente curioso por ver e ouvir António Costa.

O ter almejado uma maioria absoluta e o ter sofrido a derrota que se sabe já me chegavam. Não me desiludiu… O seu rosto é o de um ingénuo e o seu saber, digamos, nulo, ou melhor, maligno. Baste-nos um tópico: “O PS é o partido da Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Este é o ponto que vamos dilucidar – já.
O lema da Revolução Francesa (1789) é uma mentira sinistra. Os homens não são todos iguais – são é todos diferentes uns dos outros. Baste que mutuamente nos olhemos – ou, sobre o mesmo tópico, atentemos na diversidade dos ângulos dos homens de bem quando escrevem ou opinam. A Infinita Inteligência do Universo (não, não é nenhuma fórmula maçónica e o leitor, se quiser, pense em Deus em vez dela) fez-nos a todos radicalmente diferentes. É a unicidade de que falam, v.g., os filósofos. Os pais bem sabem – e tanto mais quanto mais numerosa for a prole – que todos os filhos são distintos uns dos outros. Ao sermos todos dissemelhantes – e de identidade profunda (tanto mais quanto mais nos olharmos para bem dentro, nos auto-conhecermos, e olharmos para a paisagem humana) – nada mais nos resta que uma extrema educação para connosco próprios e os outros, uma delicadeza relacional extrema e o prepararmo-nos para surpresas…
No partido, os camaradas, por diferentes que sejam, tratam-se por tu com facilidade (foi-me dito e pelo menos tem verosimilhança). Isto é aterradoramente superficial (a confiança ganha-se com o tempo) e, só por si, um eloquente indicativo da profundidade e elevação para pensar um desígnio nacional – que é o que a Política (com maiúscula) – há-de postular. Ora, ao nivelar por baixo, ao plebeizar, tem as mais funestas consequências, nomeadamente no tocante a presunção, megalomania e desresponsabilização. Um seu correlato é o tratamento por “você” (de que um aristocrata amigo dizia ser “próprio de estrebaria”).
Mais. Os cidadãos estão absolutamente longe de identificarem a profundidade do real em que estão inseridos, em que vivem, e, ao serem/estarem limitados pela sua ignorância, o porvir que constroem é ele próprio limitado e/ou problemático. A percepção da realidade envolvente releva de uma informação e de uma cultura as mais elevadas, de uma estreme verticalidade, espiritualidade, espiritualidade que é apanágio de uma minoria confinada à sua reflexão, meditação – mas sempre conectada ao quotidiano.
Do exposto há que referir o seguinte: como nem a perscrutação do real é fácil, nem a mera opinião pessoal – se é que alguma… –, nem a violência são caminho (de futuro, claro), tão-pouco o é a validade de soluções (eventuais ou passíveis de realização).
Igualdade!? – Só se for por demagogia. Ora, ao fundamentar-se nesta igualdade retórica a própria República escancara-se – não tem fundamentação. Costa, portanto, é insciente do que diz. É vital que se saiba que, dentre os mais prósperos 20 países do Mundo, tanto em PIB como “Qualidade de Vida”, 10 são monarquias – regime que se fundamenta no Sagrado. E, no rol, as monarquias estão sempre à frente.
Ao sermos todos dissemelhantes só nos incumbe, a cada um, respeitar as limitações que a Lei determina e dar ao outro a distância que lhe é devida – o que Costa e tutti quanti não fazem nem estão dispostos a fazer. Tal respeito é um alto nível de consciência de que, v.g., prisões a abarrotar (comparar com a sua população antes do 25-IV é também imperativo) são um eloquente índice… A liberdade é diversamente sentida pelas pessoas porque não são todas igualmente livres, porque umas arrastam umas servidões e outras outras. Mesmo que todas tivessem recebido uma esmerada educação há grilhetas cósmicas em alguns; e um ditado: “no melhor pano cai a nódoa”.
Quanto à fraternidade baste-nos pensar em cada uma das próprias religiões – só nas de paz... A tal respeito, por melhores que sejam as intenções e as obras, o desiderato está longe de alcançar-se. Mais. A diferença – e diferenciação – são tanto maiores quanto menos evoluídas (espiritualizadas) as comunidades forem. E estas religiões de paz não pregam uma fraternidade laica, imanente, retórica, antes se empenham pelo Transcendente. O triste torpor em que a França se arrasta é um perfeito motivo de reflexão – para quem tiver aptidão ou dignidade para fazê-la.
Em suma: as “Luzes” são um sub-produto do Cristianismo.
Guarda-27-X-2015
* Para a citação do Livro de Jeremias optei
por uma tradução, minha, do Inglês.