Contos Consulares poderia ter sido o título do meu último livro ao qual designei ROSTOS DA EMIGRAÇÃO.

Sabemos que cada rosto é uma vida, um romance, um filme. 
Na génese da feitura destes rostos em ambiente consular, comecei por vezes a partir de uma frase ouvida ao telefone, dita num encontro acolhedor. Procurei o fio de um novelo que se ia desenrolando. O rosto surgia à medida que escrevia e reescrevia o enredo. Enchia-se de pormenores. Metia-me com o frio, com o habitual sol cinzento constante nesta cidade europeia de Bruxelas. Lutava contra ele, esfregando as mãos porque as pontas do meu corpo estão geralmente frias. Levantava-me para ir acolher as pessoas à sala de espera. Os colegas propunham-me: Quer que mande entrar?  Não queria. Gostava de ir à sala de espera. Via assim outros rostos que saudava com afeição. Estendia a mão para cumprimentar, para comunicar: Seja bem-vindo! Gostava que sentissem a minha mão calorosa. Sentia por vezes mãos rugosas, calejadas, húmidas… Não importava se traziam com eles odores misturados de cozinhas ou de caves mal arejadas.
Importava começar a comunicar imediatamente: Está tudo bem? Fizeram boa viagem? Estacionaram facilmente o carro? Não se esqueceram de pagar o parqueamento? 
Geralmente vinham a dois. É assim na nossa tradição portuguesa. Um encoraja o outro. Abro a porta do meu gabinete. Entrem!
Não, entre o senhor primeiro!
Bom, lá tenho eu de entrar primeiro!
Sentem-se. Então?
Sou todo ouvidos. Há silêncios. Pego na caneta. Desenrosco a tampa. O meu olhar inclina-se sobre o papel branco. Tomo notas, num ritual de dar a maior importância ao que me é contado. Já ouvi milhares destas histórias, mas é a primeira vez que é dita por aquela pessoa que está à minha frente. O acompanhante esclarece, corrige, acrescente um pormenor.
Sinto uma cara aliviada. Alguém o olha, alguém o ouve. Ainda há mais pormenores a acrescentar. Deixo-o falar. Encontra as palavras. Encontra o ritmo normal da respiração. A tensão dos ombros desce. Pego novamente na caneta, continua a olhar para a página em branco. Peço licença para ir fazer o meu chá de proejo que colho nos riachos da Serra da Malcata, pequenos afluentes do Côa. Ausento-me. Imagino que vão acrescentar mais pormenores quando eu chegar. Pouso o meu bule branco de porcelana ao lado do telefone. O odor suave de menta invade o meu gabinete.
Cheira a Portugal!
Não se esqueçam que estamos num Consulado! Nós estamos em Portugal! Aqui é território português!
Mais um alívio para o problema que tentam expor. A dor é grande, as palavras que exprimem vão aliviando. Fala português longe da pátria e dos seus. Já há muito que o forçam a falar uma língua estrangeira! Também este peso cai. O rosto transforma-se.
Aí que bom falar a nossa língua! Já fui a outros lados, ninguém me compreendeu.”
Deixo-o falar. A palavra cura, sara. Encontra a agulha para cozer as feridas da alma e do corpo. Ainda vai ser necessário algum tempo para que as cicatrizes desapareçam. É uma questão de tempo, mas o importante foi ter encontrado as palavras, todas as palavras da língua portuguesa para exprimir a dor da alma! Na terra tinha a família, os vizinhos, os amigos de infância, da escola. Aqui tem o céu cinzento, a chuva miudinha, as quatro paredes mudas dos arredores de Bruxelas e um ou outro café barulhento onde vai ver o Benfica nas tardes de domingo.
Uso a arte maiêutica de Sócrates. Cada frase é um mundo que se abre e onde se procura a resposta para a vida. Deixo-os falar. E quando as pessoas se encontram num ambiente acolhedor, a falar a sua própria língua, conseguem transformar-se através das próprias palavras que encontraram, e curam assim a alma e o corpo.