A memória das palavras

Este ano o Nobel da literatura foi para o continente africano, nomeadamente para um escritor desconhecido, nascido na Tanzânia, mais concretamente na ilha de Zanzibar. É autor de romances e contos. Escreve normalmente em inglês, embora a sua língua nativa seja o suaíli, e fala da experiência africana e dos refugiados. Foge um pouco à ideologia europeia e traduz a mentalidade africana de desassossego e constante mudança. Ele próprio afirmou em entrevista “Retrato o colonialismo como uma destruição – não de algo mais harmonioso ou melhor, mas de uma realidade que foi resultado de interações entre diferentes culturas”. Segundo a Academia Sueca, a atribuição do prémio ficou a dever-se à “sua compreensão intransigente e compassiva dos efeitos do colonialismo e do destino dos refugiados no abismo entre culturas e continentes. A obra literária de Abdulrazak Gurnah é um retrato vívido e preciso de uma outra África, numa região marcada pela escravatura e por diferentes formas de repressão de vários regimes e poderes colonialistas: português, indiano, árabe, alemão e britânico”. Até agora só há um livro publicado em Portugal “Junto ao Mar”, por isso vamos aguardar pela publicação de mais obras para avaliarmos a sua escrita e a sua temática.Desde 2003 que o Prémio não era atribuído a alguém do continente africano.
2. P.E.N. CLUBE - Hélia CorreiaEste prémio, destinado a distinguir a melhor obra publicada no ano anterior, foi atribuído pelo júri ao livro de poesia “Acidentes”, de Hélia Correia. A autora é uma das vozes femininas mais premiada da última metade do século XX e dos primeiros anos deste século. Tem obra editada nos 3 géneros literários principais e marcou sempre uma posição singular nos temas tratados. Embora mais conhecida como voz livre na narrativa, a poesia é destacada na sua produção literária. A influência de Gabriel Garcia Marquez e Agustina Bessa-Luís é facilmente visível na sua novelística, “numa tendência para surpreender o sobrenatural no quotidiano da vida provinciana e burguesa, ou para transpor para a escrita romanesca o plano em que a dimensão social das relações humanas se cruza com a religiosidade, com a superstição e até com o irracional.” “Acidentes” é o livro de poesia publicado depois de “A Terceira Miséria” prémio “Correntes d’Escrita de 2013. A sua poesia entronca-se na de Herberto Helder como ela mesma reconhece. Mas acima de tudo a sua poética radica na Grécia base do seu pensamento e da sua expressividade literária mais visível no teatro. Numa entrevista afirmou que vai de dois em dois anos à Grécia recuperar forças e mente. “Vamos sempre a Epidauro e depois aproveitamos para fazer alguma pesquisa. Em termos de encontro imediato, o mais atrás que eu consigo chegar é ao século XIX. O resto está nas pedras e na terra. No silêncio. Longe das pessoas. Aí, conseguese recuar muito mais. Aí, conheço e reconheço a Grécia antiga. Especialmente em certos lugares: Delfos, por exemplo. Mas há nisto uma certa crueldade porque implica a desaparição de humanos. Quando se intrometem humanos, estragase por completo esse envolvimento.” (Os escritores também têm coisas a dizer, Tinta da China)