Gentes da Guarda

Às vezes vêm ter connosco livros que pensamos não serem muito importantes e que lemos pelo prazer de ler. Depois, ao longo da leitura, descobrimos que encerram uma lição de vida e que podemos aprender com eles mais do que julgávamos. Está neste caso o livro “Poesia de vida”, de Elsa Otilde Amarelo Fernandes, apresentado ao público há pouco tempo pelo filho que selecionou os poemas e os editou para homenagear a mãe que faria 100 anos. Trata-se de um livro de versos simples, mas feitos com uma técnica bastante aperfeiçoada, para quem tinha apenas de estudos a 4ª classe. Isso só vem provar, mais uma vez, que nem sempre os estudos são essenciais à vida. Contudo, vê-se logo desde o início que a autora leu muito e variados autores E foram essas leituras que influenciaram a sua maneira de escrever.O livro aborda vários temas, mas podemos restringi-los a três: amor, saudade e vida da aldeia. O amor, nas suas várias espécies, está presente em quase todos os poemas do livro. Predomina, como é óbvio pela sua história de vida, o amor ao marido desde que o conheceu até à sua morte prematura. Há vários poemas sobre este assunto. Também o amor de mãe surge em várias composições uma vez que não foi só a partida dos pais sendo muito nova, mas também a distância dos filhos, quando emigrou para França a fim de os sustentar e lhes proporcionar um curso e uma vida melhor. (A este propósito o filho recordou o episódio da carta que escreveu a Salazar a pedir autorização para emigrar e de quem recebeu a resposta com a devida chancela de obter um passaporte.) Logicamente, tendo vindo da Argentina bastante nova, deixou por lá amizades e a saudade acabou por dominá-la nalguns momentos. Quando os pais regressaram àquele país, as saudades também aumentaram, mas, nessa altura, já as raízes por cá eram mais fortes. Aquando da ida para França, o distanciamento dos filhos e dos familiares provocou igualmente um recrudescimento das saudades. Claro que, se a autora escreveu a maior parte dos versos já na parte final da vida, seria um pouco difícil manter vivos os sentimentos mais fortes, mas as impressões ficaram e delas se faz eco no livro. A este propósito são visíveis nalguns poemas a influência da poeta maior da literatura portuguesa, Florbela Espanca, assim como do outro poeta das saudades, tornadas tema literário, Almeida Garrett. Também, mais leves são notórias influências de Fernando Pessoa como também do nosso Augusto Gil.Quanto à aldeia (Quinta de Gonçalo Martins) e suas recordações, é impossível não dar por elas uma vez que se relevam em muitíssimos versos, quer direta, quer indiretamente. Assim o contacto com a natureza circundante é muitas vezes referenciado, mas também a menção a lendas ou espaços mais destacados da aldeia. Neste caso aparece, algumas vezes, a ribeira de Ade, também o moinho e a casa materna. No primeiro caso, há o poema com a referência explícita à lenda da moura das Ferrarias, que as aldeias do Marmeleiro e da Quinta de Gonçalo Martins partilham.     Nesta ligação intrínseca da autora com a natureza, há duas aves que ganham destaque e simbolismo, pois aparecem várias vezes quer no título dos poemas, quer nos versos: o rouxinol e as andorinhas. Tanto um como as outras são comuns no nosso planalto beirão. O rouxinol, cujo canto melódico pode ser ouvido ao fim da tarde e ao qual poucos ficam indiferentes, simboliza a harmonia e, por isso, é visível a ligação com nomes da Literatura Portuguesa como Bernardim Ribeiro e a sua “Menina e Moça”, ou com Almeida Garrett, na célebre menina dos rouxinóis, do romance “Viagens na minha Terra”. Já as andorinhas, não são tão “literárias”, mas facilmente nos vem à memória do lindo poema de Augusto Gil em que são a atração principal (“Boca talhada em milagrosas linhas). Aqui julgo que a sua presença se deve à ligação com a migração: tanto elas como a autora vão migrando de hemisfério conforme as estações do ano. Por outro lado, a liberdade do voo é também significativa num ambiente aldeão e essas aves raramente param na sua labuta diária.A terminar, aconselho a leitura da obra, edição da Veritas, a quem gostar de uma lírica tradicional e baseada em estruturas simples. No livro predomina o gosto pela quadra popular que a autora utiliza com naturalidade à maneira dos bons poetas populares em versos de redondilha maior – quase todos. Nestas estrofes há uma harmonia musical e uma “facilidade” que denotam uma sábia construtora formal e de conteúdo, por parte da autora que, repita-se, tinha apenas a 4ª classe. * Elsa O. Amarelo Fernandes, Poesia da vida, edição Veritas, 2021