Fundação Côa Parque


“Graça Morais: Mapas da Terra e do Tempo” é o tema da exposição, com curadoria de Jorge da Costa, que foi inaugurada no dia 3 de Junho, no Museu do Côa.
“A relação com a mais primitiva forma de arte, desconhecida ainda da menina que então rabiscava sobre as fragas do Vieiro, não só não é novidade no modo de desenhar e de pintar de Graça Morais, como tem sido, ao longo de mais cinquenta anos de vida artística, fonte geradora das mais diversas pesquisas formais e pictóricas”, explica o Museu do Côa.
Com mais de 14 mil anos, a enigmática figura, conhecida pelo “homem-bisonte”, encontrada na caverna de LesTrois-Frères, em França, é uma das muitas referências da arte do Paleolítico que Graça Morais transfere para sua pintura. Como tantas das suas geniais metamorfoses, essa invulgar representação, meio homem, meio animal, tornar-se-ia personagem de um dos monumentais cenários que realiza, em 1993, para a peça Os Biombos, de Jean Genet, levada à cena pelo Teatro Experimental de Cascais.
Não é, por isso, raro que esta *iconografia, especialmente as figurações de animais ou de figuras femininas como a Vénus de Willendorf, habitem, como protagonistas, os seus desenhos e pinturas. Os exemplos são inúmeros, sobretudo nos trabalhos que realiza nas décadas de 1980 e 1990, particularmente das séries Mapas e o Espírito da Oliveira ou os Vieiros, que apresentara, em 1983, na XVII Bienal Internacional de Arte de São Paulo, no Brasil, e, posteriormente, nos Museus de Arte Moderna de S. Paulo e do Rio de Janeiro.
Os colossais telões que concebe, em 1995, para a cenografia da peça Ricardo II, de William Shakespeare, para o Teatro Nacional D. Maria II (que pela escala foi impossível apresentar nesta exposição), são também sucedâneos das múltiplas leituras tomadas à arte ancestral. Não apenas pela forma como cita e se apropria de cores e texturas, mas sobretudo pelo modo como transfigura os animais que ressaltam das paredes das famosas cavernas de Chauvet ou de Altamira.
Esta sintonia com arte do Paleolítico sobressai sobretudo no seu virtuoso desenho, visível na sobreposição de linhas e formas, na interrupção abrupta do traço ou a aglomeração dos elementos, onde a relação com as gravuras do Côa, não só salta à vista, como é transversal ao conjunto de trabalhos, alguns deles inéditos, criteriosamente reunidos para esta exposição.
A exposição estará patente no museu do Côa até 25 de Setembro de 2022.