“Acho estranho, ao longo das 5 edições do SIAC, nunca ter sido convidado a realizar uma exposição”

Júlio Cunha, artista plástico, natural da Guarda, vencedor de prémio na 4 Bienal Internacional de Arte de Gaia. Estudou na Escola Industrial e Comercial da Guarda, Liceu da Guarda, Liceu Carolina Michaelis no Porto e Escola Superior de Belas Artes do Porto (1989), Mestrado em Artes Plásticas na ARCA-EUAC (2012). Nos tempos livres adora cozinhar, uma cozinha “gourmet” e receber amigos, ver passar as horas a falar e apreciar bons vinhos. Sabe-lhe bem, estar em casa, perto das suas coisas, descer ao atelier e ficar parado a olhar, o que lhe dá uma paz de espírito enorme, mas tem ainda os jardins para tratar, a horta e um tempo para ler. A GUARDA: Quem é Júlio Cunha e como aparece a sua ligação ao mundo das artes?
Júlio Cunha: Sou um professor/artista ligado ao mundo das artes, sempre disposto a partilhar com os outros todas as experiências/descobertas, um sonhador como todos o de signo peixes, que projeta no futuro os seus sonhos e expectativas.Recordo com nostalgia os tempos da escola primária, das ilustrações das cópias que a minha mãe ajudava, sim, foi ela que me abriu os olhos para a cor e o desenho, ela bordava nas casas dos senhores ricos da cidade, e sempre vi as coleções de desenhos florais que eu tentava copiar. Se houver outra causa ou origem, conta-se que o pai da minha mãe, padeiro de profissão, caricaturava com relativa facilidade, com pedaços de carvão, nas paredes da padaria, as figuras mais castiças da época. No meio deste percurso, temos sempre professores que nos incentivaram a seguir para artes e outros a dar o seu apoio. Nunca esqueço os professores Alves Ambrósio, Casemira Marques e António Morgado e esposa que me viram crescer como artista e, por último, um carinho especial pela Dr. Dulce Helena Borges que, enquanto Diretora do Museu Municipal da Guarda, muito me apoiou.    
 A GUARDA: É natural da Guarda mas vive e trabalha na Casa da Mó, em Amarante. O que é que o liga a este lugar?
Júlio Cunha: A primeira vez que vim a Amarante foi numa aula de História da Arte, no segundo ano das Belas Artes, sobre a rota do Românico. Achei uma cidade adorável com o Tâmega a banhá-la, o imponente mosteiro de S. Gonçalo e o Museu Amadeo de Souza Cardoso. Em 1988, conheci a minha mulher que é de Amarante e sim em 1989, vim viver para esta cidade inspiradora de tantos artistas como Amadeo, António Carneiro, Acácio Lino, Teixeira de Pascoaes e Agustina Bessa Luís. Recuperamos a Casa da Mó, um Solar do sec. XIX, num local muito aprazível que respira arte.  A GUARDA: Daí a sua formação em artes plásticas?
Júlio Cunha: Quando era jovem sonhava entrar nas Belas Artes. Pensava eu que me tornava artista só por si(!), a realidade é bem diferente. A escola dá-nos algumas ferramentas necessárias, mas só depois de muito tempo/trabalho, procura e investigação, podemos sentir que somos alguém no mundo das artes.  A minha formação em Artes Plásticas (Pintura) iniciou-se em 1982 ainda no 12º ano do Liceu Carolina Michaelis no Porto, comecei a frequentar as aulas de pintura do 2º ano das Belas Artes, em 1983 entrei para a escola e foi um choque, novas aprendizagens, e constatar que a escola não nos torna artistas. Só depois, em Amarante, os meus trabalhos se tornam mais pessoais,  é o início da exploração da gravura e novas técnicas como a resina e as infografias... Em 2012, fiz o mestrado em Artes Plásticas sobre a minha obra e a sua relação com a fotografia erótica do sec. XIX. A GUARDA: Recentemente ganhou um prémio na 4 Bienal Internacional de Arte de Gaia. Ficou satisfeito com a distinção que mereceu elogios de Valter Hugo Mãe, no Jornal de Letras?
Júlio Cunha: Quando trabalho, o único pensamento é o acto de criar, na minha pesquisa, é importante não só a exploração dos gestos somáticos desta natureza, mas também e, principalmente, a possibilidade de ensaiar e experimentar diferentes modos de direcionar os meios do desenho, da pintura ou gravura, ou de os fundir entre si, não pensamos se vamos ganhar um prémio, se a obra vai ser bem aceite pelo público...pinto para mim, é essa a liberdade que os artistas conquistaram, o ganhar um prémio, sim é um estímulo enorme, maior responsabilidade(?) talvez(!), acreditar que vale a pena continuar a sonhar e partilhar com os outros os nossos sonhos. O reconhecimento por parte do Valter Hugo Mãe, um escritor/pintor, que muito admiro, foi um prémio especial. Ma o mundo da arte, os júris de seleção, é muito estranho(!), ganhamos um prémio numa Bienal Internacional e, ao mesmo tempo, não somos pré-selecionados noutra. Tudo é relativo, mesmo na nossa terra.     A GUARDA: Quando é que começou a expor os seus trabalhos?
Júlio Cunha: As primeiras exposições foram a partir de 1980, na Guarda, na altura havia poucos artistas, era o mais novo de todos; o Aníbal, o Brigas, o Marques, o Rebelo... e queria ser como eles. Mas o percurso faz-se com o tempo e muito trabalho. Ao longo de 40 anos, quero salientar as mais importantes: “Bienal de Cerveira”97/01/03...; “FAC’99/01/00/01/02..., Feira de Arte Contemporânea de Lisboa na; “ARCO’01/02” Feira de Arte Contemporânea de Madrid, Espanha, (o meu sonho mais alto, que sempre pensei impossível e que se realizou); “ARTE-COLONE’03/04-Alemanha; “ARTEVENT’04- Lille, frança; “EUROP’ART”05- Geneve, Suíça...  
A GUARDA: Em 2017, participou no “SIAC 2 Simpósio Internacional de Arte Contemporânea”, na Guarda. Que balanço faz desta experiência?
Júlio Cunha: Um projecto muito interessante e de relevância, mas, como artista plástico, considero que ficou muito aquém das expectativas, sendo professor o tempo em que decorre o SIAC não me permitiu estar mais que dois dias, apesar disso, a partilha de conhecimentos com outros artistas foi muito positiva, nomeadamente com a Mariola  Landowska. Contudo acho estranho, ao longo dos 5 edições do SIAC, nunca ter sido convidado a realizar uma exposição!   A GUARDA: Também já teve exposição individual na Galeria do Teatro Municipal da Guarda, em 2005. Gostava de voltar a expor na Guarda?
Júlio Cunha: 2005 foi sem dúvida um marco importante na minha carreira com duas exposições em simultâneo na Guarda: “L’ Infortune de la Vertu” no TMG,uma grande exposição que depois foi apresentada a convite do Ministério da Cultura na “Casa das Conchas” em Salamanca, inspirada no livro de Sade “La Marquise de Gange”, que já tinha servido de mote para a exposição na ARCO/01, em Madrid, e também a exposição “Confrontos Dessacralização e Vanguarda” (Júlio Cunha e Albuquerque Mendes), no Museu Municipal da Guarda. Quanto a futuras exposições(!), depois de projetos e convites que não se concretizaram, fico a aguardar e, em jeito de desabafo, sinto que há muito tempo, há tempo de mais, às gentes da nossa terra custa reconhecer o talento e o esforço de tantos que, como eu, apesar de ausentes, conservam, como referiu Américo Rodrigues “...a rudeza dessas aragens/ dessas paragens/ dessas paisagens...”.
 A GUARDA: Projectos para o futuro?
Júlio Cunha: Depois de tantos anos de trabalho, à sofreguidão  e estado de ansiedade constante, de aparecer e de ser reconhecido, típico da juventude, vem a calmaria de uma certa maturidade artística que leva a caminhos mais elaborados onde as obras surgem mais pensadas, e sempre novas etapas, sou um inconformista por natureza com a necessidade de constante mudança.Os projetos acontecem, muitas vezes, ao acaso, continuar a pintar, preparar novas exposições e parcerias com artistas e instituições como a exposição apresentada no Paço da Cultura em 2017,  “20 40 /20 gravadores/40 gravuras – Portugal / França” com a minha Curadoria e dos Ateliers Rigal de Paris.