Eduardo Lourenço, o nosso ser pensante

As palavras duras como o granito que a pequena aldeia alimentou, forjaram-lhe o pensamento que espalhou pelo mundo, entenda-se Europa. O seu pensamento é brilhante como um dia de neve na sua cidade de adoção quando, afastadas as nuvens, o sol brilha ferindo os olhos de uma paisagem de brancura imaculada. Nascido humilde, humilde foi sempre, mas tornou-se superior pelo pensamento sobre nós, sobre o país, sobre a vida e sobre a morte.Esta surpreendeu-o, ou não, num dia assinalado para o país sobre o qual tanto reflectiu, o da Restauração. Deixa-nos em testamento muitos textos importantes para pensarmos nesta vida que vivemos, hoje, mais ou menos confinados. E não, não é só pela pandemia, mas por aquilo que a tecnologia pôs à nossa disposição. Vivemos isolados uns dos outros. Cada uma vive fechado no seu mundo e “Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos” nas palavras do poeta Eugénio de Andrade e que o nosso Eduardo Lourenço disse desta maneira: “Hoje podemos estar uma vida inteira a ver cinema, televisão ou um ecrã e morrer sem ter entrado na vida.” (Público, 2017) Mas o mais admirável nesse grande homem era a sua humildade e a simplicidade que sempre cultivou. Fosse em Paris, fosse em São Pedro do Rio Seco entabulava com alguém uma conversa seguida sem os ares de superioridade que alguns intelectuais gostam de exibir e capaz de uma frase tão simples e tão complexa como esta: “Custa-me muito dizer não quando sou solicitado para uma conversa. Corresponde a um interesse dos outros por nós e a uma espécie de recusa tácita de ser objeto de um interesse que nunca me parece justificado.” (Ipsilon, 2017) Mas não só nesse aspeto, também no reconhecimento de que a cultura é algo inerente ao ser humano: “Sei tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois” (Idem). A cultura que possuía foi produto das suas leituras que assimilou e alargou ao refletir sobre essas mesmas leituras que expressou nas suas obras e hauriu nas obras os outros. Um bom exemplo são os seus livros sobre escritores especialmente esse magistral ensaio sobre Fernando Pessoa: Fernando, o rei da nossa Baviera.  Mas afinal, SENHOR Eduardo Lourenço, o que é ser português? Quando se nasce numa aldeia naquele tempo, Portugal não está à vista. Ser português, então, é falar português, ter uns certos hábitos que vêm do fundo dos tempos. É estar confinado num sítio incógnito, pouco visto, pouco sabido dos olhos do mundo; é estar isolado e ser feliz. (Ipsilon, 2017)Gonçalves MonteiroProfessor