Morreu Eduardo Lourenço


“O caixão de Eduardo Lourenço tem, qualquer que seja a sua forma, a forma de Portugal, do qual ele foi e será, para muitas gerações futuras, um explorador e um cartógrafo, um detective e um psicanalista do destino, um sismógrafo e um decifrador de signos, uma antena crítica e um instigador generoso e iluminado”.
“O caixão de Eduardo Lourenço tem, qualquer que seja a sua forma, a forma de Portugal”, disse o Cardeal José Tolentino Mendonça, no funeral de Eduardo Lourenço, que decorreu no Mosteiro dos Jerónimos, no dia 2 de Dezembro. “Teixeira de Pascoais, que escreveu a «Arte de ser português», quis ser enterrado num caixão em forma de lira; o caixão de Eduardo Lourenço tem, qualquer que seja a sua forma, a forma de Portugal, do qual ele foi e será, para muitas gerações futuras, um explorador e um cartógrafo, um detective e um psicanalista do destino, um sismógrafo e um decifrador de signos, uma antena crítica e um instigador generoso e iluminado. Depois dele, todos podemos dizer que nos entendemos melhor a nós próprios”, afirmou o arquivista e bibliotecário da Santa Sé, no Mosteiro dos Jerónimos.Eduardo Lourenço, ensaísta, professor, filósofo e crítico literário morreu no dia 1 de Dezembro, em Lisboa, aos 97 anos de idade, tendo sido decretado para 2 de Dezembro, dia de luto nacional.O cardeal Tolentino Mendonça disse que o luto que Portugal faz de Eduardo Lourenço pertence aos lutos que “excedem o domínio pessoal, pois configuram como uma experiência de perda colectiva”.“Quando morre um escritor, a literatura fica enlutada mas também acontece, raramente – é verdade mas acontece – que, com alguns escritores, a própria literatura ou uma ideia de literatura ou uma inteira ética da literatura morra com eles, pois naquele criador que partiu os leitores de uma geração, que até pode ser de uma geração futura, reconhecem uma razão, uma sabedoria, uma verdade ou um fulgor, onde se encontraram refletidos, interrogados, transportados a uma fronteira de si próprios e do mistério”, afirmou.“A Eduardo Lourenço devemos a lição de interrogar, não só a vida mas também a morte, com sabedoria, distanciamento, serenidade e esperança, lutando para conter a história nos limites do humanamente aceitável, tarefa, como sabemos, trabalhosa e inacabada, mas também indeclinável, se quisermos que a civilização e o humanismo sejam mais do que uma abstracção”.Para D. José Tolentino Mendonça, Portugal deve ainda a Eduardo Lourenço a “rara capacidade do cuidar da ideia de comunidade”, uma concepção que “reforça o conjunto como nação”, elucida sobre “a experiência de bem-comum que é um país”.O bibliotecário da Santa Sé recordou uma pergunta a Eduardo Lourenço: «Professor, o que pensa de Deus?». “E a resposta dele, abriu um alçapão. Trouxe aquele arrepio sideral do infinito que falava Pascal. «Sabe, mais importante do que dizer o que eu penso de Deus é saber o que Deus pensa de mim»”.A cerimónia, que decorreu no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, local que Eduardo Lourenço apelidou de “jardim de pedra”, foi presidida pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e contou com a presença do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.O corpo de Eduardo Lourenço foi sepultado no cemitério de São Pedro do Rio Seco, concelho de Almeida, no dia 3 de Dezembro. 
Eduardo Lourenço
Morreu Eduardo Lourenço, Professor, filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta, interventor cívico. Tinha 97 anos.Eduardo Lourenço, um dos pensadores mais proeminentes da cultura portuguesa, nasceu a 23 de Maio de 1923, em São Pedro de Rio Seco, concelho de Almeida.Frequentou o Curso de Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra onde concluiu a licenciatura com uma dissertação com o título “O Sentido da Dialética no Idealismo Absoluto”.Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, na Universidade de Coimbra, em 1946, onde inicia o seu percurso, como assistente e como autor, com a publicação de “Heterodoxia”.Foi Leitor de Cultura Portuguesa, nas universidades de Hamburgo e Heidelberg, em Montpellier e no Brasil, até se fixar na cidade francesa de Vence, em 1965.Foi conselheiro cultural da Embaixada Portuguesa em Roma. Em 1999, passou a administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.Eduardo Lourenço recebeu o Prémio Camões (1996) e o Prémio Pessoa (2011).Entre outras distinções, recebeu as insígnias de Grande Oficial e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.Era Oficial da Ordem Nacional do Mérito, Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras e da Legião de Honra de França.Na Guarda foi o mentor do Centro de Estudos Ibéricos e dá nome à Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço.