Missionário jesuíta era natural da cidade da Guarda


Francisco de Pina, padre jesuíta natural da Guarda, que se destacou como missionário e linguista na Cochinchina, que corresponde à região do centro do actual Vietname, vai ser homenageado pelos vietnamitas.
Com a esperança de que em breve seja criada a embaixada de Portugal no Vietname e do Vietname em Portugal e o reconhecimento pelo governo vietnamita do contributo dado pelos portugueses na criação da escrita daquele país distante, estiveram na Guarda, durante dois dias na passada semana, dois vietnamitas, Nguyen Dang Hung, Presidente da Fundação da Língua Vietnamita, e Nguyen Tan Nghia.
Estas duas personalidades deslocaram-se propositadamente à cidade da Guarda para ultimarem, coma autarquia, os preparativos da homenagem de reconhecimento que intelectuais do Vietname pretendem realizar ao Padre Francisco de Pina (1586-1625), um ilustre guardense nascido no Séc. XVI e falecido, em trágico naufrágio ao serviço de portugueses, no final do primeiro quarteirão do século seguinte, em 1625.
Na passagem pela Guarda, os vietnamitas foram sempre acompanhados por António Salvado Morgado que, desde há dezena e meia de anos, tem vindo a estudar a vida de Francisco de Pina, sobre o qual publicou vários artigos, esperando vir a publicar brevemente a sua biografia.
O Padre Francisco de Pina é um jesuíta da Guarda que, ainda estudante e com a idade de 20 anos, rumou para o Extremo Oriente e completou os estudos filosóficos e teológicos no famoso Colégio de São Paulo em Macau. Ordenado sacerdote foi enviado para a incipiente missão dos Jesuítas na então Cochinchina, que corresponde à região do centro do actual Vietname, onde se notabilizou como missionário e linguista.
Foi o primeiro a falar com perfeição a língua local e a pregar sem intérprete, pelo que era muito admirado e estimado pelos locais, tendo dado início a um trabalho percursor de mérito indiscutível: a utilização do alfabeto latino para transcrever a língua local que utilizava, à altura, caracteres ideográficos tipo chinês. Actualmente a língua do Vietname possui uma escrita romanizada a que os vietnamitas chamam com orgulho «escrita nacional», o «quôc ngu», onde se encontram claros sinais da Língua Portuguesa, razão pela qual se diz que há ali um trabalho de «lusitanização» linguística.
Acrescente-se ainda que a Língua Vietnamita é a única do Extremo Oriente que utiliza caracteres latinos.
“Devido a este trabalho percursor, o jesuíta Padre Francisco de Pina é visto presentemente como notável personalidade histórica pela igreja local e por personalidades da cultura, sobretudo linguistas, escritores, poetas e, naturalmente, historiadores” disse António Morgado, ao Jornal A GUARDA. E acrescentou: “A cidade da Guarda, graças a Francisco de Pina, está lá, no falar e na escrita da cultura vietnamita. Daí a homenagem que aquela gente lhe quer prestar na terra onde ele nasceu e de onde partiu para nunca mais regressar”.
“Regressa agora homenageado, graças à iniciativa de vietnamitas, reconhecidos, como estão, ao Padre Francisco de Pina”, conclui António Morgado.
A Guarda bem pode sentir orgulho deste seu antigo filho, como orgulhoso se deverá sentir com tão agradecidos vietnamitas que de longe o querem homenagear.
Ao que o Jornal A GUARDA apurou, também vai ser estabelecida a geminação de Hô Chi Minh, antiga Saigão, com a cidade do Porto. De facto, o Padre António Barbosa, um dos mais notáveis continuadores do trabalho de Francisco de Pina, nasceu em Arrifana de Sousa, na região do Porto.
Será um sonho irrealizável a geminação da Guarda com a cidade vietnamita de Da Nang ou da turística Hoi Han? Tem a palavra o município.