No passado dia um de Dezembro deixou-nos o ilustre ensaísta, Professor Eduardo Lourenço

. Existência longa e muito rica, cheia de actividades múltiplas na pluralidade dos seus gostos, opiniões e interesses culturais, viveu-a o insigne pensador. Partiu no dia em que Portugal celebra o dia da Restauração da Independência. Neste dia feriado muito significativo, Eduardo Lourenço, a quem Portugal tanto deve, encetou uma outra viagem para, esteja onde estiver, continuar a olhar-nos, a observar este país, este povo, as suas características idiossincráticas, as suas qualidades, os seus defeitos, enfim a sua identidade – “Portugal é uma espécie de milagre intermitente.” Deste modo o definiu.Nascido em 23 de Maio de 1923 em São Pedro do Rio Seco, concelho de Almeida, bem cedo a sua errância se iniciou, passando enquanto aluno pelo Liceu da Guarda, posteriormente pelo Colégio Militar em Lisboa, frequentaria mais tarde a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas com alta classificação. Foi convidado para Professor Assistente dessa mesma Faculdade, mas pouco tempo nela permaneceu pois horizontes mais vastos se lhe ofereciam. Ei-lo embarcado num percurso académico cheio de brilho e de méritos unanimemente reconhecidos. Não cabe no âmbito deste breve artigo pormenorizar a sua carreira académica. Em França, esteve em Bordéus onde conheceu Annie Salomon com quem viria a casar em 1954. Façamos um parênteses para referir que Annie, companheira de uma vida, faleceu, por coincidência, hélas, no dia um de Dezembro de 2013. As suas cinzas repousam no cemitério de S. Pedro do Rio Seco e aí repousa também Eduardo Lourenço.Antes de ser Maître-assistant e professor associado na Universidade de Nice, esteve também na Universidade da Baía (Brasil), nas Universidades de Grenoble (França), de Hamburgo e Heidelberg (Alemanha) e ainda na Universidade Nova de Lisboa.A sua jubilação ocorreu em Nice em 1989. Residiu desde 1974 em Vence, cidadezinha medieval perto da Universidade onde leccionava, até regressar definitivamente a Portugal. Foi administrador não-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian entre 2020 e 2012. O Presidente da República convidou o ensaísta para integrar o Conselho de Estado, a ele tendo permanecido até ao seu falecimento.Autor de uma vastíssima e valiosa obra ensaística da qual seria exaustivo citar os títulos dos muitos livros que a constituem, refiro entre outros, Heterodoxia, Labirinto da Saudade, O Espelho Imaginário, Fernando, Rei da Nossa Baviera, O Canto do Signo, etc., etc. Colaborou em inúmeros jornais e revistas não só literárias pois o seu interesse era multímodo, versando diversos assuntos desde a música, pintura, sociologia, política...Pelo seu reconhecido mérito recebeu vários prémios, com particular destaque para o “Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon” (1988), o Prémio Camões (1996), em 2001 o Prémio Vergílio Ferreira e o Prémio Pessoa em 2011. Sobre este último Eduardo Lourenço “Este prémio é diferente de todos os outros que já recebi. Desde logo porque tem o nome da pessoa cultural e intelectualmente mais importante da minha vida.”Recebeu, também, as mais distintas condecorações não só em Portugal como em França. Foi distinguido com o Doutoramento Honoris Causa pelas Universidades do Rio de Janeiro (1995), pela de Coimbra (1996) e pela Universidade Nova de Lisboa (1998). Além destas distinções, várias homenagens lhe foram prestadas, entre elas a que foi promovida na Guarda em 2000 por iniciativa da Câmara Municipal. A Biblioteca Eduardo Lourenço consubstancia um mericidíssimo reconhecimento da nossa cidade, bem como o Centro de Estudos Ibéricos (CEI) que ele próprio idealizou no discurso proferido no 8º Centenário da concessão do foral à cidade da Guarda. Foi, até ao falecimento, o seu Director Honorífico.Alguns momentos que com Eduardo Lourenço partilhei, e de quem tive o privilégio de ser amigo, ficam para mim como recordação indelével da mais brilhante personalidade literária que conheci. Aliava, à sua imensa cultura, uma irradiante simpatia e uma tocante simplicidade enquanto pessoa. Senhor de um apurado sentido de humor, foi um sábio, um humanista e continuará a ser, disso não duvido, uma perene e sólida referência.Guarda, 5 de Dezembro de 2020António José Dias de AlmeidaProfessor