“Decidi escrever o dicionário por perceber que, boa parte, senão mesmo a maioria, das nossas palavras e expressões idiomáticas, estavam em perigo de desaparecer”

Miguel Pinto Monteiro é natural de Lisboa mas tem ligações familiares a Porto Mourisco (Guarda) e do Peroficós (Sabugal). Fez o ensino básico no Externato Franciscano da Luz, o ensino secundário nos Maristas de Lisboa e o ensino universitário em organização e gestão de empresas no I.S.C.T.E.-IUL (Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa- Instituto Universitário de Lisboa). É pós graduado em Gestão das Organizações Sociais pela Universidade Católica.Gosta de ler (ouve imensos áudio-livros, pois é invisual), de assistir a concertos de música clássica e música pop, escuta rádios nacionais e estrangeiras, e devora tudo o que é podcast sobre gestão. Gosta de viajar, passear, descobrir.A GUARDA: Natural de Lisboa, o que liga Miguel Pinto Monteiro à Guarda e ao Sabugal? 
Miguel Monteiro: Passei largas temporadas nas aldeias dos meus pais e, fui tomando carinho e paixão por todas as pessoas e por todos os nossos costumes. Nunca fui uma pessoa distante e, embrenhava-me nas nossas tradições e vivências.Nada sabe melhor, do que, nos finais de tarde, sentarmo-nos no largo da aldeia, e tomarmos parte nas conversas descontraídas e, simultaneamente irmos comendo uma côdea de pão com chouriço ou queijo e bebericando um trago de vinho ou uma mini.Enquanto disfrutamos destes luxos simples da vida, ia-me apercebendo da imensa sabedoria e tranquilidade das nossas gentes.Valores como a rectidão, valores como o trabalho e a lealdade, são valores que preservo para sempre.Todos estes momentos contribuíram para formar a pessoa que hoje sou, e me ligam umbilicalmente ao Porto Mourisco e ao Peroficós de um modo muito particular, e à Guarda e ao Sabugal por inerência.
A GUARDA: O que é que o levou a escrever o “Dicionário Beirão” um livro inspirado na sabedoria popular?Miguel Monteiro: Decidi escrever o dicionário como homenagem aos meus queridos avós e, por perceber que boa parte, senão mesmo a maioria, das nossas palavras e expressões idiomáticas, estavam em perigo de desaparecer.Lembro-me perfeitamente, do momento da decisão: festejávamos o aniversário da minha avó Alexandrina. Estava a família toda reunida em torno da mesa e, do nada e subitamente, a minha avó atira para o ar uma daquelas esplêndidas expressões: “Nem tudo o que alveja é farinha”.Ora digam lá, isto não é simplesmente delicioso? E, além do mais, não é sabedoria e inovação?Aí decidi não esperar nem mais um segundo. Pedi então à minha prima Claudia e à minha mãe que me ‘assentassem’ numa folha de papel esta pérola.A partir daí fui coligindo todo o nosso palavreado. Começava assim a minha missão de memória futura pois, já tinha percebido estar a ouvir cada vez com menos frequência, da boca dos nossos maiores, estas expressões maravilhosas. Este apagar da memória, aflige-me.
A GUARDA: Como fez a recolha do palavrear do povo Beirão? 
Miguel Monteiro: Como disse, fui tomando registo de todas as palavras ouvidas aqui e acolá nos cantos onde ia.Um trabalho de filigrana e muito labor mas, sobretudo um trabalho de paixão genuína.Além disso, bastou-me vasculhar dedicadamente as minhas memórias de infância, e encontrar muitas das palavras escutadas nesses tempos ainda não tão longínquos.O passo seguinte foi despistar e eliminar aquelas palavras sobre as quais não tinha a certeza de serem o mais possível da nossa região.Aqui, existe sempre alguma margem para erro. Como procuro ser fiável e fidedigno, pedi uma ajuda preciosa ao meu óptimo amigo e também Beirão, João Marques Martins.Fizemos a revisão conjunta, em três tardes de lembranças, trabalho e diversão.E assim foi.
A GUARDA: Podemos dizer que encontramos nesta obra palavras e todo o manancial de sabedoria popular presente no falar do povo Beirão?
Miguel Monteiro: Sim, foi justamente esse o meu propósito: Reunir as palavras e, as expressões sábias da nossa gente. Dou-lhe um exemplo: a minha madrinha Isabel, certo dia, saiu-se com esta – ‘Por o pouco, se vê o muito’.Agora digam-me: isto não é sabedoria? E esta forma de falar não é simplesmente deliciosa?
A GUARDA: Considera que com esta obra conseguiu surpreender e conquistar curiosos e literatos?
Miguel Monteiro: A minha ideia foi escrever um livro capaz de despertar a curiosidade desses dois públicos. Sinceramente, pelos testemunhos que me foram chegando, ao longo destes 4 anos de publicação, penso ter conseguido.Tive adolescentes que leram o livro, que não tinham ligações nenhumas às nossas origens Beirãs, que me disseram ter adorado. Um deles, disse-me: Agora já sei o que vou chamar à minha irmã e ela nem vai perceber. Posso chama-la ‘Tronglamonga’. Disse-me isto em tom jocoso, pois, tinha achado uma sonoridade curiosa na palavra.Chegaram me também testemunhos de amigos, como o João Felix, que me disseram: “Há muito que não me ria tanto a ler um livro; ou como os psicólogos Carlos Bastardo e Paula Agostinho, que me disseram ter adorado o livro.Do mesmo modo, foram muitos os ecos de pessoas da nossa Beira que me manifestaram a alegria imensa ao recordar esses tempos de infância. Pessoas como a Irene Brigas, Manuela Costa e Nuno Monteiro (do Peroficós), pessoas como a Ana Maria, a Felisbela, e a Cândida (do Porto Mourisco); pessoas como Maria José Diniz da Fonseca (fundadora da Asta), Luis Fonseca, Manuel e a Filomena também da (ASTA, na aldeia da Cabreira) ou pessoas como o cientista e professor Carvalho Rodrigues, o economista Júlio Barroco, a professora Maria Clara, do Politécnico da Guarda, o advogado João Marques Martins, o jornalista da RTP João Adelino Faria, a professora Sara Selgas, a investigadora Patricia Neca, ou o vereador da Cultura da Câmara da Guarda Vitor Amaral ou ainda o Presidente da Câmara de Almeida, todos manifestaram o agrado ao lerem o Dicionário Beirão. Algumas das pessoas acima mencio nadas são meus amigos e como Amigos, são francos e sinceros. Juntamente com a minha família todos me disseram ter escrito uma obra que faltava e que lhes tinha trazido o sorriso terno das memórias.
A GUARDA: Há ou não o perigo real de se perder este palavrear do povo Beirão?
Miguel Monteiro: Penso que sim. Tenho notado essa erosão, de cada vez que vou à terra. Não escuto, ou escuto muitíssimo menos, essas palavras já só presentes nos mais antigos como a ti Prazeres que fez a vida toda praticamente só na aldeia.Já nem os meus pais, nas viagens para a terra, começam a empregar as palavras da aldeia, à medida que vamos ficando mais perto do Distrito da Guarda.Na aldeia, ainda se escutam algumas palavras mais frequentes como por exemplo: assentar ou apeguilhar. Mas já se diz comumente cogumelos, em vez de ‘tartulhos’.A língua como tudo na vida vai evoluindo e colhendo neologismos e contributos de outras origens. Contudo, seria uma pena acontecer essa diluição.
A GUARDA: Como olha para o futuro desta região em termos culturais?
Miguel Monteiro: Olhar para o futuro, é uma postura a preservar e que todos devemos cultivar.Francamente acredito haver muito potencial cultural nas nossas terras e gentes. Senão, vejamos: a cultura pode definir se sinteticamente como as nossas características diferenciadoras dos demais. Assim sendo, além Deste modo muito próprio de falar, quais são as nossas marcas distintivas? Acredito que temos cartas a dar na nossa gastronomia. Temos produtos únicos, como é o caso dos nossos queijos e enchidos, para mim os mais deliciosos, mas temos também trunfos no nosso modo de acolher os outros, sempre com um convite para entrar e comer uma côdea.Temos ainda uma marca muito forte: a nossa resiliência espírito de sacrifício bem presente durante as invasões francesas, já para não falar de Viriato o nosso bravo chefe Lusitano. O contrabando feito em toda a nossa zona raiana pode constituir um belíssimo produto cultural e uma imensa fonte de histórias envolventes. O turismo termal, associado as nossas praias fluviais e associado a nossa paisagem um pouco agreste e muito tranquilizante, podem constituir igualmente uma característica diferenciadora.Enfim, penso que temos muito por onde caminhar. Talvez, trabalhando mais em rede, e investindo mais na parte promocional e na criação de uma oferta mais estruturada, possamos afirmarmo-nos definitivamente como uma marca de excelência.