“A ASTA necessita agora construir A FONTE, um equipamento que está a ser pensada e arquitectado há cerca de 7 anos… para os que foram e vão envelhecendo”

A GUARDA: O que é que a levou a escrever o livro “A Menina Cabreira”?
Maria José: Este ano eu tinha-me proposto escrever as memórias dos 20 anos da ASTA. Essa era a intenção, o compromisso, mas chegou o início do ano, depois Março e, a vontade extinguiu-se. Justificava a minha ausência de vontade com a nova situação que a visitante Covid19 nos trouxe, dizendo-me que as memórias da ASTA precisavam de uma outra ambiência e de um outro tempo. Perante a nova situação e a circunscrição que daí adveio, a aldeia da Cabreira e a sua  paisagem circundante adquiriram um interesse particular, mais atento e circunspecto. Este espaço manifestou-se como um pequeno oásis, um reduto de “salvação” onde em vez do ruído alarmante do medo se podia ouvir a voz da natureza, da ribeira, dos pássaros... Veio-me mais intensamente à memória uma tal menina, pastora de cabras, que poderia ter vivido por ali e deixado saudades. Foi assim que, em julho de 2020, a Menina Cabreira tomou forma; uma pequena história suave e diria até, romântica, que nos desperta para uma outra escuta e um outro olhar.
A GUARDA: Conta a lenda que a Menina Cabreira impregnou as terras e as gentes da beira interior de um halo de alegria, de mistério e esperança. Podemos dizer que a ASTA - Associação Sócio Terapêutica de Almeida se tornou na nova Menina Cabreira? 
Maria José: Há coisas que escrevemos impulsivamente ou intuitivamente e só mais tarde nos apercebemos das mensagens que contêm. Sim, de alguma forma, o grupo ASTA impregnou esta terra de uma nova cor, mais brilhante e esperançosa. São eles, os companheiros da ASTA, que mais escutam os ecos dos barrocos, percorrendo os caminhos quase esquecidos e descobrindo outros. Sim, podemos, simbolicamente, dizer que eles são os pastores guardiões desta paisagem ainda pura.   A GUARDA: Ao olhar para trás, qual o balanço que faz dos vinte anos do início das actividades da ASTA?
Maria José: É naturalmente um balanço positivo impregnado de muita gratidão. O objetivo que presidiu ao nascimento da ASTA, cumpriu-se, alargou-se e deu sentido de vida a todos que fazem parte desta comunidade terapêutica. Foram, até agora, com as dificuldades e desafios inerentes, construídos os equipamentos físicos necessários; foram estabelecidas sinergias sociais indispensáveis a uma efetiva inclusão; foram criados os ritmos, o sentido do trabalho ocupacional e da família indispensáveis para um exercício espontâneo de cidadania e de pertença identitária. Foi ainda criado, ao longo do tempo, um grupo de amigos que é portador (cada um à sua maneira) de afetos, de apoios e de entusiasmo. Estes são uma mais valia para a ASTA que se sente assim acarinhada e impulsionada para continuar o caminho mesmo com as agruras que ele possa conter.
A GUARDA: Actualmente, quais são as valências disponibilizadas pela ASTA?
Maria José: As valências/respostas existentes na ASTA são: LRE- Lar Residencial; CAO – Centro de Atividades Ocupacionais e RA – Residência Autónoma. Nestas respostas integram-se 44 companheiros (utentes) distribuídos entre a aldeia da Cabreira e a Fonte Salgueira.  
A GUARDA: A ASTA tem protocolos com outras instituições de Almeida e do concelho, nomeadamente Câmara Municipal, Juntas de Freguesia e paróquias?
Maria José: Sim, desde sempre estabelecemos protocolos e parcerias com as instituições da região, sejam públicas ou privadas (mesmo com outras instituições do país e estrangeiro). Umas com carater mais oficial e de continuidade, outras mais espontâneas e circunstanciais dependendo da oportunidade e pertinência consideradas favoráveis para todas as partes.
A GUARDA: Neste período tão conturbado, provocado pela Covid19, como é que a ASTA está a responder aos novos desafios e quais as principais dificuldades que tem sentido?
Maria José: Tentamos responder a esta crise humana e social, da forma possível, adequando as nossas instalações e vivências, conforme as normas emanas pela Segurança Social que desde o princípio acompanha todo este processo. Não é fácil, quando lidamos com pessoas para quem a presença, o toque, o olhar e o afeto constituem ferramentas fundamentais. Apesar disso a resiliência e o respeito pelas normas que vamos implementando, são aceites humildemente pela maioria, mesmo não entendendo, intelectualmente, a sua razão de ser. Mas, uma das grandes capacidades desta população é de aceitação, mesmo com sofrimento, muitas vezes, daquilo que lhes é pedido ou imposto, desde que amorosamente feito. 
A GUARDA: Quais os projectos que ainda gostaria de concretizar?Maria José: Para cumprir a missão a que nos propusemos e continuar a dar uma resposta dignificadora até ao final de vida, a ASTA necessita agora construir A FONTE – um equipamento que está a ser pensada e arquitetado há cerca de 7 anos. Será um espaço que contém as respostas LRE e CAO, destinadas aos que foram e vão envelhecendo ficando com mais fragilidades e menos proactivos. Eles precisam agora de um espaço com características mais assistencialistas e com dinâmicas mais específicas. Desejamos que este projeto, em fase de licenciamento, seja levado a cabo com a maior brevidade mesmo não tendo, ainda, a ASTA verba para tal. Também a necessidade de investimento nos recursos humanos, se impõe (a ASTA tem 44 colaboradores). Urge motivar, qualificar e consciencializar mais do que nunca. Sem um capital humano habilitado e motivado, nenhuma organização poderá avançar saudável e assertivamente. Há ainda os projetos de inclusão e valorização dos companheiros. O Contigo, há Descoberta…- um projeto de turismo social e natureza que começamos já a experienciar e que terá os companheiros como principais atores, é um exemplo dos desafios que pretendemos desenvolver, em conformidade com o que o futuro nos vá aportando como possibilidade e oportunidade.