“De um modo geral constatamos que as pessoas estão preocupadas” devido ao Covid-19, “mas conseguem gerir o seu dia-a-dia de forma mais ou menos tranquila”


António dos Anjos Lopes é nascido, baptizado e casado em Albardo, onde frequentou a escola primária. Fez o ciclo preparatório na Escola General João de Almeida (actualmente Santa Clara), curso geral dos liceus, actual Escola Afonso de Albuquerque.É Sargento-mor da GNR na situação de reforma. Para além de presidente de junta, é também, desde 2012, vice-presidente da IPSS – Liga dos Amigos do Albardo. Dedica-se à pequena agricultura. No pouco tempo livre de que dispõe gosta de ler jornais e revistas, ver televisão e de utilizar o computador e consultar a internet.
A GUARDA: Como Presidente da União das Freguesias de Pousade e Albardo, na zona rural do concelho da Guarda, quais as principais preocupações neste tempo de isolamento social, provocado pelo estado de emergência, devido ao covid-19?
António Lopes: – As principais preocupações deste executivo prendem-se essencialmente com o bem-estar das pessoas residentes na freguesia, por força do estado de emergência que estamos a atravessar, devido ao covid-19. No sentido de saber se têm no seu dia-a-dia as suas necessidades essenciais tais como géneros alimentícios, medicamentos e outras, a junta de freguesia disponibilizou-se desde o primeiro momento para prestar todo o tipo de ajuda, através de contactos pessoais, divulgação dos nossos contactos, afixação de editais das normas de segurança individual. O executivo esteve ainda atento à chegada à freguesia de pessoas oriundas de fora do país e de outros centros urbanos, alertando estas pessoas para a necessidade e obrigação de permanecerem em quarentena. A todos levamos uma palavra de incentivo para que não percam a esperança, porque temos a certeza que no final todos iremos ficar bem. A GUARDA: De que maneira é que tem contactado com as pessoas da União de Freguesias, nomeadamente as mais idosas?
António Lopes: - Tanto eu como os restantes elementos deste executivo temos a preocupação de quase diariamente saber se alguém tem algum sintoma que se relacione com o covid-19. Em Pousade tivemos um caso positivo, vindo de França, tendo nós de imediato contactado a autoridade de saúde local e a linha de saúde 24 com a finalidade de evitar qualquer contágio. Quero ainda referir que por falta de resposta da linha Saúde 24, foi o secretário da junta que trouxe no seu próprio veículo, o doente ao NERGA na Guarda, a fim de ser feito o respectivo teste, pondo em risco a sua própria saúde.Nesta freguesia existem duas Instituições Particulares de Solidariedade Social: Liga de Amigos do Albardo e Liga dos Amigos de Pousade, que em estreita colaboração com a junta de freguesia têm facilitado o nosso trabalho no acompanhamento aos idosos pois ambas, com poucos meios, têm de forma exemplar acompanhado e apoiado os seus utentes e outros que nesta fase necessitam. Aproveito esta oportunidade para agradecer em nome da junta de freguesia aos órgãos socias e colaboradores das duas instituições, o trabalho árduo que desempenham e todo o seu zelo no cumprimento dessa nobre missão de apoio social, que só por si não é fácil no dia-a-dia e especialmente nesta situação epidémica que estamos a atravessar.  Temos ainda prestado todo o apoio que nos é solicitado no sector do ensino à distância aos alunos da freguesia através da tiragem de fotocópias e a cedência de espaço de internet. A GUARDA: Como é que as pessoas têm encarado e vivido esta situação tão específica de isolamento social?António Lopes: No passado dia 22 do corrente mês fizemos entrega porta a porta, de um Kit de protecção constituído por máscaras cirúrgicas, luvas e gel desinfectante, tendo desta forma tomado conhecimento do estado de espírito dos residentes e o modo como estão a encarar esta situação específica de isolamento social. De um modo geral constatamos que as pessoas estão preocupadas, mas conseguem gerir o seu dia-a-dia de forma mais ou menos tranquila, cuidando das suas pequenas hortas e dos seus (poucos) animais domésticos. Uma das maiores carências que referem é a falta dos espaços de convívio, nomeadamente os cafés da aldeia, que com o encerramento dos mesmos não podem tomar o seu café, jogar às cartas, por a conversa em dia com os amigos e comprar alguma coisa para casa que lhe fizesse falta. Foram alertados que o isolamento social e o distanciamento entre as pessoas eram e são o melhor remédio para combater o vírus, tendo ficado com a certeza que as pessoas estão informadas e a cumprir as medidas de confinamento.
A GUARDA: Na prevenção e combate a esta pandemia foram contactados e elucidados por alguma entidade sobre a forma como deviam actuar?
António Lopes: Tive conhecimento da forma de actuar através dos órgãos de comunicação social e da legislação publicada. No caso positivo de covid-19 que conseguimos controlar impedindo a contaminação de outras pessoas e tivemos o apoio directo da Autoridade de Saúde Publica concelhia e distrital da Guarda, nas pessoas do senhor Dr. José Valbom e da senhora Drª. Ana Isabel Viseu.  A GUARDA: Como presidente da União de Freguesias de Pousade e Albardo quais as principais dificuldades com que se tem debatido ao longo do mandato?
António Lopes: Para além das obras já executadas e outras que vamos executar até final do mandato, as principais dificuldades com que nos temos debatido prendem-se com a falta de apoios financeiros, pois nem esta junta de freguesia nem as outras freguesias rurais só por si não têm capacidade financeira para desenvolver e levar o cabo todas as necessidades urgentes das freguesias. Para além da dotação que nos é atribuída pelo Fundo Equilíbrio Financeiro, esta junta não tem outra fonte de rendimentos, sendo as despesas mensais fixas elevadas. Apesar de algum apoio financeiro por parte do Município da Guarda e a cedência de alguns materiais, os mesmos são sempre escassos. Uma dificuldade com que nos deparamos é a falta de mão-de-obra pois torna-se difícil arranjar gente, devido à desertificação, para trabalhos que têm que ser executados diariamente na freguesia. 
A GUARDA: Quais as principais potencialidades existentes nesta União de freguesias?
António Lopes: - A maior potencialidade e o património mais valioso da freguesia são as pessoas. No aspecto físico esta freguesia tem grandes potencialidades: muitas casas de granito algumas delas recentemente reconstruídas de rara beleza, duas lindas igrejas matriz, paisagens naturais excelentes e despoluídas. Esta freguesia é atravessada por dois cursos de água, do lado do Albardo o Rio Nóeme, que se espera que venha a ser totalmente despoluído com já foi, o qual pode e deve ser visitado através dos Trilhos do Noéme, recentemente construídos pelo município da Guarda, e apreciar o seu curso, os moinhos antigos existentes ao longo do seu leito e toda a zona envolvente, desde a nascente até ao limite do concelho. Pousade é servida pela Ribeira das Cabras, e na sua margem esquerda nesta localidade (Várzea) existe um magnífico parque de merendas todo equipado e um campo de futebol relvado, equipamentos estes que são muito utilizados quer por pessoas da freguesia e outras fora da mesma. De referir também o Teatro Religioso de Pousade que, desde há muitos anos na semana santa, os habitantes desta localidade levam à cena uma peça de teatro relacionado com a Paixão de Cristo.  A GUARDA: Como olha para o actual estado de despovoamento das aldeias do interior do País, nomeadamente desta região?
 António Lopes: Infelizmente esta freguesia não foge à regra do despovoamento que se sente em todo o nosso interior, o que origina que a população residente seja maioritariamente constituída por idosos. Devido à desvalorização que foi dada à agricultura e aos nossos agricultores e que levou ao abandono da pecuária e consequentemente dos terrenos agrícolas, a falta que houve e continua a haver de investimento, e a criação de novos empregos nesta região, as pessoa foram obrigadas a procurar outros locais para sobreviver, tendo uns emigrado e outros emigrado, mas que de uma forma geral voltam mesmo que pouco tempo às suas raízes, uns após a reforma e outros aquando das tradicionais festas de verão, sendo estas por excelência a oportunidade de as pessoas se reencontrarem e trazerem mais pessoas à freguesia. No entanto temos que ter a esperança que regressem definitivamente a estas terras que os viram nascer, pois aqui actualmente existe melhor qualidade de vida do que no litoral e nos grandes centros populacionais e todos nós temos a obrigação e o dever de dar a conhecer as potencialidades do interior em geral e das nossas freguesias em particular