Professor Eduardo Lourenço

“O Centro de Estudos Ibéricos, que temos de considerar como um dos dos seus mais valiosos legados à cidade onde deu os primeiros passos rumo à academia, aí está para dele nos fazer memória”. 
Aos 97 anos de idade, despediu-se de nós o Professor Eduardo Lourenço, que nos deixa notabilíssimo testamento.Grande pensador e homem de cultura, soube, como ninguém, colocar o seu muito saber, cultivado e ensinado em várias universidades da Europa e do mundo, ao serviço das pessoas e das comunidades, nomeadamente aquelas de onde partiu e às quais fez questão de trazer sempre a mais valia do seu percurso de académico e intelectual.Que o diga a cidade da Guarda, com a biblioteca que herda o seu nome, mas também com o Centro de Estudos Ibéricos, que se orgulha da sua paternidade, nomeadamente a partir da ideia apresentada na sessão solene comemorativa do oitavo centenário da Guarda como cidade, no ano de 1999. Que o diga também a sua terra natal, São Pedro de Rio Seco, junto à fronteira arraiana, com a placa comemorativa da homenagem que ali lhe foi prestada, no ano de 1995. Nela se evoca o seu percurso como figura cimeira da cultura e do pensamento português e europeu contemporâneo. E para lugar de afixação foi escolhido, e bem, o edifício da Escola Primária, onde ele aprendeu as primeiras letras como também a primeira compreensão do mundo e de si mesmo, antes de vir para a Guarda frequentar o ensino secundária e depois partir para a Universidade de Coimbra e daqui para a grande viagem académica e cultural que o levou a universidades da França e do Brasil.O seu valor como intelectual e pensador começou a revelar-se e a ser reconhecido quando ainda dava os primeiros passos na carreira de docente universitário, em Coimbra. Por isso, no ano de 1949, parte para França como bolseiro. Continuando a revelar grande valor como intelectual e homem de letras, é sucessivamente convidado para trabalhar em vários projetos culturais e para lecionar em várias universidades. E os resultados do seu valor e do seu trabalho tiveram o merecido reconhecimento de muitos prémios e condecorações que lhe foram atribuídos em Portugal, em França e mesmo na vizinha Espanha.Viveu a maior parte da sua vida fora de Portugal, mas nem por isso deixou de nos oferecer um pensamento muito próprio sobre a nossa identidade como povo, com oito séculos de história. Decifrou sinais, penetrou o destino português, com rasgos de psicanalista, apontou caminhos. Por isso, podemos dizer que, depois dele, todos nos entendemos melhor, como país e como nação, no concerto do mundo e da Europa que passou a ser a nossa pátria alargadaA sua forma de pensar Portugal é cheia de muitas provocações e entre elas a de procurarmos ser um povo capaz de desfazer as amarras do ensimesmamento no passado e passar a acertar o passo com a modernidade. Segundo o seu pensamento, não podemos viver apenas de saudades, alienados do que se passa no mundo. De facto, impõe-se que o nosso destino como povo desfaça o “labirinto da saudade” e responda corajosamente aos grandes desafios que se colocam à nossa história e à nossa cultura quanto à inserção na Europa e no mundo. Por sua vez, as ideias feitas e as formas tradicionais do nosso pensar e atuar não se compaginavam com a criatividade e a liberdade de pensamento do Professor Eduardo Lourenço. Por isso, quando lemos a sua  obra “Heterodoxias I e II”, sentimos que ela nos remete para a realidade portuguesa desafiada a cortar com amarras atávicas a um passado de saudade e a apostar no verdadeiro compromisso com o futuro que temos a responsabilidade de construir, rompendo com todas as formas de isolamento.Por sua vez, quando Eduardo Lourenço procura pensar Portugal aberto ao mundo, faz-nos perceber como essa abertura tem de começar pelo compromisso com as nações e com as culturas que nos estão mais próximas; neste caso, a Ibéria, que não envolve apenas a vizinha Espanha, mas também os novos mundos para onde esta exportou a sua cultura e os seus valores, nomeadamente a América Latina, como nós o fizemos para o Brasil.É por isso que o Centro de Estudos Ibéricos, que temos de considerar como um dos dos seus mais valiosos legados à cidade onde deu os primeiros passos rumo à academia, aí está para dele nos fazer memória. Estamos profundamente gratos ao Professor Eduardo Lourenço pelo património de pensamento e cultura que nos deixa. E podemos testemunhar que os grandes valores que bebeu e transportou consigo, desde a sua terra natal, o ajudaram, em muito, a cimentar a coerência e a sustentabilidade do seu pensamento e do grande contributo que soube dar tanto para o bem da sociedade em geral e do nosso país no seu todo, como das comunidades às quais deve os primeiros passos do seu percurso como homem de ciência e de cultura.A terminar, duas notas finais que revelam muito do seu espírito e das suas convicções.Quando lhe perguntaram o que pensa de Deus, respondeu: “Mais importante do que o que eu penso de Deus é o que Deus pensa de mim”. Certamente que agora já o sabe.
Quando, num diálogo cultural sobre a Bíblia, lia a palavra “Jesus”, com emoção e as lágrimas nos olhos, reagiu espontâneo: “Jesus! Não há nada superior a Jesus”. E repetiu o texto das bem-aventuranças.2.12.2020+Manuel R. Felício, Bispo da Guarda