Entrevista: Nuno Lemos – Presidente da Associação de Voleibol e Professor Responsável pelo Centro Gira-Volei da Escola Carolina Beatriz Ângelo

Nuno Lemos, Presidente da Associação de Voleibol e Professor Responsável pelo Centro Gira-Volei da Escola Carolina Beatriz Ângelo, é natural da Guarda. Estudou na Escola Adães Bermudes; Escola Básica de Santa Clara; Escola Secundária Afonso de Albuquerque e Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física – Universidade do Porto.Nos tempos livres gosta de praticar actividade física, de qualquer género, sendo o voleibol uma paixão e o triatlo um amor mais recente.A GUARDA: A modalidade de voleibol tem sido uma das apostas, no sector do desporto, da Escola Carolina Beatriz Ângelo. Podemos dizer que esta modalidade é uma das marcas da Escola?
Nuno Lemos: Sim, sem dúvida. Para além de ser uma modalidade oferecida aos alunos, desde o primeiro ano lectivo em que a Escola abriu, em 1999/2000, tem mantido sempre um elevado número de alunos e alunas praticantes e, apesar de não ser o mais importante, tem, ao longo destes 22 anos obtido diversos títulos, distritais, regionais e nacionais, o que também contribui para ser, como referiu, uma das marcas da Escola e do Agrupamento de Escolas da Sé.
A GUARDA: O que é que o levou a criar o Centro de Gira-Volei Modelo da Sequeira, na altura?
Nuno Lemos: A paixão que tinha, e ainda tenho, pela modalidade, o querer proporcionar aos alunos da Sequeira a possibilidade de participarem num projecto nacional muito bem organizado e apoiado pela Federação Portuguesa de Voleibol e que acreditava, como se veio a confirmar ao longo destes anos, poderia proporcionar-lhes excelentes e inesquecíveis experiências.
A GUARDA: A sua ligação com a Associação de Voleibol da Guarda tem ajudado no desenvolvimento da modalidade junto dos alunos?
Nuno Lemos: É óbvio que facilita mas não é por ser, também, o presidente da direcção da Associação de Voleibol da Guarda que os alunos da Escola Carolina Beatriz Ângelo são favorecidos em relação aos alunos de outras Escolas e Clubes onde a modalidade é praticada. O que pretendemos é que o voleibol tenha cada vez mais e melhores praticantes e por isso procuramos colaborar com todas as instituições que nos contactam, quer seja apoiando com material ou com recursos humanos na organização das mais diversas actividades de promoção e desenvolvimento da modalidade, nos distritos da Guarda e Castelo Branco.A GUARDA: Quais as actividades que a Associação de Voleibol da Guarda vai realizar, ao longo deste ano?Nuno Lemos: As actividades da Associação de Voleibol da Guarda passam muito pelo projecto Gira-Volei, com o objectivo de iniciar os alunos na modalidade, aumentar o número de praticantes e fazer a transição para o desporto federado, o que nos últimos anos só tem sido possível em Seia, local onde existe o único clube do distrito com uma participação regular nos campeonatos da Federação Portuguesa de Voleibol. Recentemente, na Guarda, dois clubes estão a tentar seguir esse trajecto de passagem do Gira-Volei para o federado – Núcleo Desportivo e Social da Guarda e Os Sanchos, que têm contado com o nosso apoio na organização de diversas actividades de promoção da modalidade e nos primeiros treinos que realizaram. Em relação às actividades previstas, continuaremos a realizar sessões de divulgação, promoção e iniciação à modalidade em todas as escolas do primeiro ciclo das cidades da Guarda e Seia, apoiaremos todas as escolas dos 2º, 3º ciclos e ensino secundário dos distritos da Guarda e Castelo Branco com material para os Centros Gira-Volei e na organização de actividades internas, continuaremos a apoiar a Coordenação Local do Desporto Escolar na organização dos quadros competitivos de voleibol e na formação dos árbitros para essas competições, organizaremos a competição distrital do Gira-Volei, que apurará os nossos representantes para a final nacional, continuaremos a apoiar a participação do Sena Clube de Seia nas competições da Federação Portuguesa de Voleibol, realizaremos formação de monitores Gira-Volei, professores e treinadores, e colaboraremos com qualquer instituição que nos solicite, como tem sido o caso da Câmara Municipal da Guarda, para a animação dos seus campos de férias.A GUARDA: Há muitos jovens a praticar voleibol? 
Nuno Lemos: Felizmente sim. Apesar de, infelizmente e por enquanto, não haver seguimento para o desporto federado, no Desporto Escolar da CLDE Guarda, o voleibol é a segunda modalidade com mais grupos-equipa e praticantes. Neste momento existem no distrito da Guarda 11 escolas com oferta da modalidade e 23 grupos-equipa, masculinos e femininos, que irão participar nos quadros competitivos de voleibol, desde o escalão de infantis até ao de juvenis. Sendo 18 o número mínimo de alunos necessários para inscrever um grupo-equipa, existem, pelo menos, 414 alunos e alunas a praticar a modalidade no Desporto Escolar da CLDE Guarda. No Gira-Volei temos, até ao momento, 20 centros activos, com cerca de 1200 atletas em actividade, nos distritos da Guarda e Castelo Branco, mas procuramos atingir os números pré pandemia, que eram de 40 Centros Gira-Volei e cerca de 2500 atletas a participarem no projecto.A GUARDA: Qual a importância do Desporto Escolar no programa curricular da Escola?Nuno Lemos: A importância é enorme. Considero que é o projecto mais importante da Escola e mesmo do Agrupamento. O Clube do Desporto Escolar do Agrupamento de Escolas da Sé é um dos maiores, se não mesmo ainda o maior do País, com 30 grupos-equipa e a oferta de 12 modalidades diferentes, que proporcionam mais de 90 horas semanais de prática desportiva orientada aos nossos alunos, que neste ano lectivo são mais de 680 os inscritos, até ao momento. Para além da prática regular de actividade física e da formação desportiva, o Desporto Escolar também desempenha um papel fundamental na formação ética e moral dos nossos alunos, transmitindo-lhes valores fundamentais para as suas vidas. Permite, ainda, aproximar toda a comunidade educativa através das actividades organizadas para alunos, professores, assistentes operacionais e famílias, como sejam caminhadas, passeios de BTT ou mesmo desafios de actividades físicas em família pelas limitações que a pandemia nos tem colocado nos últimos tempos.
A GUARDA: Podemos dizer que as novas tecnologias estão a roubar tempo ao desporto?
Nuno Lemos: Infelizmente sim. E, pior do que estarem a roubar tempo ao desporto, estão a transformar as nossas crianças e futuros adultos em “analfabetos motores”. São cada vez mais as dificuldades motoras que os alunos apresentam, com a excepção da motricidade fina dos dedos... Vários são os alunos que têm imensas dificuldades em caminhar em cima de uma linha, deslocar-se de costas, subir para uma cadeira, agarrar uma bola que lhes é enviada, lidarem com a derrota, cooperarem com os companheiros... porque os estímulos que estão a receber são apenas visuais e nas ponta dos dedos. Antigamente jogavam futebol na rua, mesmo que por vezes tivessem de fugir à polícia, agora jogam futebol nas consolas, antigamente jogavam às escondidas, onde tinham de subir a árvores, saltar muros, passar por buracos apertados, definir uma estratégia para não serem encontrados... agora fazem tudo isso... mas virtualmente, sentados numa cadeira ou num sofá onde, para além da inactividade física, ainda adquirem posturas incorrectas e contribuem para más formações futuras. No entanto, não considero que as novas tecnologias tenham apenas aspectos negativos relacionados com o desporto porque também podem ser fonte de motivação. Existem diversas aplicações para telemóvel que incentivam e motivam para a prática desportiva, apresentando desafios diários, semanais e mensais para as pessoas se manterem activas. Até mesmo as próprias redes sociais, onde muita gente publica as suas actividades físicas, podem servir de inspiração e motivação para quem está mais acomodado.
A GUARDA: No seu ponto de vista o que é necessário fazer para captar mais crianças e jovens para a prática desportiva?Nuno Lemos: Considero que os Pais e os professores de Educação Física desempenham um papel importantíssimo na motivação das crianças e jovens para a prática regular de actividade física. Se em casa os Pais motivarem os seus filhos e os alertarem para a importância de serem crianças fisicamente activas, facilmente eles aderem à prática desportiva. Mas muitas vezes, com a vida atribulada e ocupada dos adultos, o mais fácil é deixarem estar os filhos agarrados aos telemóveis para terem algum tempo de descanso... Se os próprios Pais derem o exemplo, sendo adultos activos e ocuparem parte dos seus tempos livres em actividades desportivas, tudo será mais fácil para as crianças. E acreditem, só custa começar; depois de ganharem o gosto e reconhecerem a importância de serem activos, são os filhos que incentivam e motivam os Pais. Também os professores de Educação Física podem ter um papel muito importante em todo este processo. Se para além de ensinarmos os conteúdos programáticos das diversas modalidades conseguirmos sensibilizar os nossos alunos para a importância de serem activos, explicando-lhes todos os benefícios que daí advêm, às vezes até com o próprio exemplo, estamos a contribuir para uma sociedade mais activa, mais saudável e com menos problemas. É claro que depois é necessário haver as estruturas e as condições para que a prática desportiva se realize – espaços públicos adequados, instalações desportivas com condições, clubes organizados e dinâmicos...