Entrevista: Flávio Miguel Tacanho Massano – Presidente da Câmara Municipal de Manteigas


A GUARDA: Qual o balanço que faz de um ano como presidente da Câmara Municipal de Manteigas?

Flávio Massano: Gostava de ter feito muita coisa que não fiz, ou melhor, que não fizemos. Essa sensação fica sempre. E acho que essa é a maior aprendizagem que levo deste ano. E o balanço que posso fazer é que os tempos numa câmara municipal são diferentes daquilo que são os tempos numa empresa privada onde nós pensamos, idealizamos, planeamos e executamos. Nas câmaras municipais é diferente. Há todo um enquadramento político que é necessário fazer. Há também um enquadramento de entidades gestoras ou com tutela sobre grande parte deste território ou sobre partes do território que temos de consultar para tudo e mais alguma coisa e, no fundo, por vezes fica aquele sentimento de que as coisas para andarem e para avançarem demoram muito tempo.
E esta é uma aprendizagem que levo. O nosso plano para 2022 era claramente um plano de colocarmos em marcha algumas obras e algumas intervenções que vão ter de ficar necessariamente para o próximo ano, porque lá está, também por causa destes tempos e destas condicionantes.
Em termos mais políticos e pessoais, faço um balanço muito positivo porque é um ano de aprendizagem. De certa manira mudámos a forma de estar do político e do presidente em Manteigas com maior proximidade das pessoas, com a procura sempre de envolver todas as associações, os empresários e de estabelecermos aqui um ambiente de partilha, de comunicação, um ambiente de interacção entre todas as entidades. Eu acho que isso tem sido sentido e notado: esta abertura, esta vontade em mudarmos um pouco a face de Manteigas.
Não tem sido fácil porque a verdade é que, desde o início de Agosto até agora, grande parte do nosso tempo foi consumido quer pelo grande incêndio, quer pelas consequências do mesmo, nomeadamente as enxurradas. Eu diria que a Câmara funcionou a uma velocidade até ao final de Julho, e de Agosto para cá é como se tivesse sido um ano à parte. Foi menos tempo mas com uma quantidade de actividades e de questões que tiveram de ser tratadas com urgência e com tanto melindre, não é, porque estamos a falar da vida das pessoas e das populações afectadas, que marcam este primeiro ano de mandato.
A GUARDA: Mas é um desafio ser Presidente da Câmara de Manteigas?

Flávio Massano: É um desafio. É um desafio muito grande mas é um desafio bom também porque, no fundo, com a nossa visão e com a visão das pessoas que nos ajudaram a construir este projecto, podemos mudar o sítio onde nós vivemos. Podemos mudar a nossa rua, o nosso bairro, a nossa comunidade e isso é algo que nos deixa muito felizes. Sentir que nós podemos impactar positivamente na vida das pessoas, pelo menos é esse o nosso objectivo, não impactar negativamente, mas é um desafio. No fundo é uma função que nos consome 365 dias por ano, não digo 24 horas por dia, porque obviamente também temos o nosso descanso. Mas este ano também foram vários os dias onde estávamos a descansar e o telefone tocou porque aconteceu alguma coisa.
Foi um ano muito exigente, muito difícil mas, mesmo assim, é uma actividade e uma função que não estou nem estarei descontente de ter assumido. É um desafio enriquecedor e que me honra muito.
A GUARDA: Este executivo fez das Faias uma marca. Podemos dizer que Faias é uma marca de Manteigas?
Flávio Massano: Sim. Não fomos nós que inventámos as Faias, as Faias já ali estão há muitos anos. Já havia caminhadas nas Faias. Quando nós entrámos havia um evento nesta altura do ano que era o Festival de Outono. Entendemos que Festival de Outono tanto pode ser realizado em Manteigas, como na Guarda, como na Covilhã, como noutra cidade qualquer. Tentámos, debaixo do chapéu de uma nova marca, aglutinar quase um mês inteiro de actividades. Muito rapidamente chegamos ao nome das Faias porque sabíamos que as Faias era um grande atractivo deste território, e porque não este festival ou este evento chamar-se ele próprio Faias. E foi assim que surgiu, no início do mandato, e foi uma aposta ganha. Novembro do ano passado foi um dos meses mais fortes da economia em Manteigas. Falámos com vários empresários que bateram recordes de facturação nesse mês , não só em comparação com períodos homólogos mas inclusivamente em comparação com todos os meses do ano, mesmo épocas altas. Isso fez-nos ainda reforçar a aposta para este ano e o Faias cá está, na sua segunda edição. Este ano começou na sexta-feira, dia 4 de Novembro e vai até ao final do mês. Posso, por exemplo, adiantar que em termos daquilo que é actividade que nos liga à natureza, que é as Faias, nós temos mais de doze escolas inscritas, com cerca de 350 alunos e temos mais cerca de 350 caminheiros inscritos para as caminhadas do fim-de-semana. Só neste âmbito da caminhada conseguimos perceber que vamos atrair perto de mil pessoas inscritas, sem contabilizar todos os outros que o fazem sem inscrição.

A GUARDA: É um evento para melhorar?

Flávio Massano: É um evento sempre para melhorar. Este ano aumentámos também já a verba do orçamento, portanto o orçamento é um pouco superior. Mas estamos a fazer tudo isto com muita prata da casa e com muita engenharia financeira. Estamos a falar de um evento que no total não vai custar sequer 50 mil euros ao município. É difícil fazer um evento destes, durante um mês todo, com esta verba, mas o facto de os recursos não serem infinitos faz-nos pensar em cada aposta e sermos criativos e tirar o melhor de cada evento. O ano passado com 35 mil euros, este ano com 50, temos conseguido fazer algo interessante e que depois, é esse o nosso objectivo, impacte na economia de Manteigas. É esse também o objectivo de todos os eventos que nós fazemos.

A GUARDA: Como é que o actual executivo olha para o sítio de Penhas Douradas?

Flávio Massano: A zona das Penhas Douradas, já o disse várias vezes, para mim é o local mais emblemático e mágico da Serra da Estrela. Está preservado no sentido em que a construção ali, que aconteceu, já foi há muitas décadas atrás e não temos neste momento construção clandestina e indigna. Temos uma herança e um património arquitectónico e cultural naquela zona que é preciso preservar. Por isso, vamos, como Câmara Municipal, apoiar uma candidatura da Associação Amigos das Penhas Douradas que estão a fazer para classificar aquele local como local de interesse nacional. No fundo o que pretendemos para as Penhas Douradas é manter esta ligação entre a construção que existe e a natureza e a paisagem e a altitude que ali temos – são cerca de 1400/1500 metros. Estamos a preparar um Plano de Pormenor que é um instrumento estratégico para nós, para este executivo, mas para Manteigas, de podermos trabalhar aquela zona para, ser uma zona pioneira no País, no sentido de criarmos ali condições de acesso e de circulação praticamente apenas pedonal e através de mobilidade suave. Quando digo mobilidade suave falo de bicicletas eléctricas, de bicicletas, de caminheiros, de veículos eléctricos adquiridos para o efeito. No fundo queremos criar uma reserva natural, protegida dentro do Parque Natural da Serra da Estrela. Colocar ainda mais em foco aquela zona e preservar toda a história da arquitectura, a história científica também por causa da grande expedição à Serra da Estrela, a primeira expedição. E usufruir daí, tirar das Penhas Douradas o melhor que ela tem para nos dar que é essa história, essa cultura.
Também alguns equipamentos que queremos instalar nas Penhas Douradas. Este sim, o grande projecto âncora de Manteigas para os próximos anos, o Observatório das Alterações Climáticas. É algo que já estamos a discutir directamente com o Governo, apoiado pelos meus colegas presidentes de câmara dos restantes municípios do Parque Natural da Serra da Estrela. É um projecto em parceria com o IPMA - Instituto Português do Mar e da Atmosfera que é o detentor do local e também com a APA – Agência Portuguesa do Ambiente.
É um projecto nacional que pretende instalar naquele observatório um grande Observatório Nacional das Alterações Climáticas.

“A revisão do tarifário da água, é também, um tema que nós
vamos ter de lançar ainda durante este mandato”
A GUARDA: A água também desempenha um papel importante no concelho de Manteigas?
Flávio Massano: A água desempenha um papel importantíssimo em todo o lado e em Manteigas também. Grande parte das questões centrais deste mandato vai passar sobre o assunto da água. É um tema sensível, pois a água não é inesgotável, mesmo na Serra da Estrela. Ela não é inesgotável, infelizmente, e as pessoas valorizam pouco, ainda, o recurso água. E estou a dizer de maneira geral, a nível nacional valorizamos pouco a água. Em Manteigas, neste momento, nós temos um grave problema de exploração da água, estou a falar da água para consumo humano, porque aquilo que cobramos aos nossos munícipes é muito inferior aquilo que nós pagamos pela água. A revisão do tarifário da água é, também, um tema que nós vamos ter de lançar ainda durante este mandato.
Nós temos mil litros e água que custam 50 cêntimos. Enquanto as pessoas sentirem que continuar a lavar os carros, a lavar as escadarias com mil litros de água, porque estão a gastar 50 cêntimos, essa valorização deste recurso não vai acontecer, porque ela é barata demais com aquele sentimento que é infinita. Ela não é infinita e nós temos de a preservar e uma forma de a preservarmos é mostrarmos às pessoas que é um recurso valioso pelo qual temos de pagar.
Hoje em dia nós compramos uma garrafa de 33 centilitros num café ou num restaurante e custa sempre perto de um euro. Estamos a falar de mil litros custarem 50 cêntimos em Manteigas. Este é dos primeiros temas importantes da água em Manteigas.
Um segundo tema, é que nós temos uma empresa de engarrafamento de águas em Manteigas, que quer crescer, que se quer expandir e temos também uma concessão da Fonte Paulo Luís Martins para lançarmos nos próximos tempos. Portanto, a água sempre presente.
Por último, temos também o assunto da água em debate com os municípios da Serra da Estrela. Temos algumas reuniões já agendadas com o Ministério do Ambiente para discutirmos a importância de reservarmos a água no Inverno para a termos no Verão. Esta é uma opção estratégica dos municípios do Parque Natural da Serra da Estrela do qual eu, através do instrumento da Comissão de Cogestão sou o Presidente. Está na nossa agenda, estamos a trabalhar nisso, de podermos mostrar ao Governo que, no Plano de Revitalização, também temos de ter uma palavra a dizer sobre aquilo que é a construção de futuras barragens, açudes, diques, reservatórios de água. Chamemos-lhe o que quisermos, mas nós precisamos de guardar a água que esta Serra tem, porque é uma água que vai daqui para o resto do País.
Precisamos de guarda a água porque vamos tê-la em alguma abundância no Inverno e precisamos de a guardar quando ela é pouca, que é no Verão.
São três temas que, em Manteigas, colocam a água no centro da agenda nos próximos tempos.

A GUARDA: Quando falamos em Manteigas, falamos de um lugar de turismo?

Flávio Massano: Manteigas, neste momento, grande parte do seu tecido económico é virado para o turismo. Com a enorme oferta hoteleira, restauração, temos de continuar a apostar neste sector. Aquilo que nós queremos para Manteigas é que nos próximos tempos tenha produtos novos, experiências novas, que possam permitir que as pessoas que nos visitam fiquem mais tempo nesta região.
Um dos grandes problemas da nossa região da Serra da Estrela é que a duração média da estadia é curta. Precisamos de aumentar esse número de noites que as pessoas ficam connosco e para isso precisamos de ter produtos, precisamos de ter conteúdo e no fundo é isso que estamos a preparar.
Estamos sempre centrados, obviamente, na preservação da natureza, naquilo que é a harmonia perfeita entre o visitante e a paisagem e a natureza e os nossos amigos pedestres e é nisso que vamos apostar nos próximos tempos
Aqui, em Manteigas, não vamos na senda dos passadiços, não é nada disso, é mais cultivar o pedestrianismo e a caminhada ligada à natureza e ao natural. Portanto sem grandes infra-estruturas, sem grandes intervenções na natureza, ou seja, permitir que as pessoas quando entram em Manteigas pisem um território virgem, com pouca intervenção, onde estão em perfeita comunhão com a natureza. A grande aposta que nós vamos fazer é transformar os nossos Trilhos Verdes numa marca muito mais forte, muito mais robusta. Queremos fazer de Manteigas a localidade e o sítio perfeito para praticar a caminhada, para poder libertar a mente do stress, da pressão do dia-a-dia. Vamos fazer rebranding (reestruturação de marca) dos Trilhos Verdes, vamos criar percursos novos, vamos reformular algumas casas perdidas na serra, as Casas de Guarda - já temos também uma candidatura em curso para as enquadrarmos numa nova forma de visitação. Aquilo que queremos oferecer às pessoas é um território que não só promove o turismo de natureza, de desporto e de aventura como também nos ligamos à questão da saúde, à questão mental, à questão do ar puro e da qualidade de vida e de ar que aqui podem ter. Portanto, ligar a parte da aventura, do desporto, e do exercício à parte da saúde, isso é para nós muito importante.

A GUARDA: Ser sede do Geopark Estrela também ajuda?

Flávio Massano: Ajuda e vai no sentido de posicionarmos Manteigas como um destino verdadeiramente de natureza. “Manteigas vale por Natureza” diz o nosso lema, somos o coração também da Serra da Estela e temos de tirar partido dessa nossa localização e desta nossa estratégia. O Geopark vindo para Manteigas, naturalmente que nos deu aqui alguma centralidade neste tema, porque a verdade é que também estamos muito mais dentro do dia-a-dia desta associação e obviamente as pessoas têm sentido o impacto desta presença no terreno. Nós também gostamos de nos associar às entidades vivas do território e todas as actividades que nós fazemos, neste momento, equacionamos fazê-las com o Geopark.
O meu desiderato era que todos os municípios percebessem, também, que têm no Geopark, nesta associação, um parceiro. No fundo o Geopark somos nós todos, todos os municípios. O Geopark só existe porque existem municípios, porque existe este território. O que nós temos feito é aproveitar esta presença no local, como já o fazíamos quando o Geopark estava na Guarda, para os colocarmos nas nossas actividades, para colocarmos este conhecimento ao dispor das pessoas que nos visitam.

A GUARDA: Os incêndios do último Verão marcaram muito toda a região da Serra da Estrela. Passado o período mais crítico, o que é que já aconteceu ou está a acontecer no terreno?

Flávio Massano: Desde que o incêndio foi dado como extinto, depois de toda esta gravidade, quase que nem tivemos muito tempo para pensar nos incêndios. Enquanto andávamos a trabalhar naquilo que eram as intervenções a fazer junto do Governo, tivemos enxurradas em duas freguesias, que acabaram por causar vários prejuízos que nos colocaram ainda mais problemas em cima do grande problema que foi o incêndio.
Há cerca de duas semanas assinámos os contractos programa com o ICNF e com a APA e, nesse momento, estamos a colocar procedimentos na rua para avançarmos com trabalhos.
A Câmara Municipal de Manteigas, à semelhança de outras Câmaras mas, em específico a nossa, assumiu a componente da intervenção em propriedade privada. Os baldios, as associações de caça e recreativas receberam as suas próprias verbas, por tanto, nessas áreas de baldios, serão os baldios a intervir. O município recebeu, ou vai receber uma verba para intervir, principalmente, nos terrenos privados. Ainda não o fizemos, porque temos de intervir essencialmente naquilo que têm sido as grandes quantidades de água que têm passado nas nossas freguesias, causando vários danos. Vamos começar a fazer estes procedimentos e vamos para o terreno. É uma sensação de que já passou algum tempo depois do incêndio, mas estamos a correr contra o tempo. No fundo o Inverno está à porta e há muito trabalho para fazer. Mas sabemos que o Estado por incapacidade de meios passou o trabalho para as Câmaras e as Câmaras vão ter de encontrar entidades para passar este trabalho, porque nós também não temos capacidade para o fazer. Espero que no final possamos dar resposta a todos estes assuntos sem haver nenhuma morte a lamentar, sem haver feridos.
Uma das boas notícias de tudo isto é que ninguém se magoou, ninguém perdeu a vida. Num incêndio destas dimensões, e tudo o que aconteceu depois, é quase, não lhe chamaria milagre, mas é muito bom não termos nada disso a lamentar.
A GUARDA: E a reflorestação da área ardida?

Flávio Massano: A reflorestação, para mim, é a parte menos importante. Ao contrário daquilo que a comunicação social e as pessoas falam, considero que não é possível reflorestar até um ano depois. Nós temos de deixar a natureza falar, temos de perceber onde é que a regeneração espontânea e o que é que própria natureza vai fazer. A natureza sabe melhor do que nós aquilo que precisa.
Quanto à reflorestação, acho que nós devemos estar preocupados com o controlo das pragas. Neste momento muito mais importante, do que estarmos mais focados em reflorestar, é evitar que sítios aonde tínhamos folhosa e autóctones sejam agora impregnadas de árvores exóticas como as acácias.
Durante os próximos meses vamos fazer os trabalhos de estabilização de emergência e depois passaremos para as acções de reflorestação. Elas vão acontecer mas, neste momento, o mais prudente não é começarmos a reflorestar. Temos de esperar que a natureza fale primeiro e depois nós passarmos para a reflorestação.

A GUARDA: Poderá haver mais bosques de faias?

Flávio Massano: Seguramente que vai haver mais. Já temos essa indicação de um agrupamento de baldios em Manteigas, nós próprios temos alguns terrenos onde também temos a indicação de que queremos carvalhos, queremos castanheiros, queremos faias. Queremos mais árvores que possam atrair pessoas e criar até um produto turístico, embora saibamos que também já não vai ser nos próximos tempos. As árvores têm o seu tempo que também é diferente do tempo dos humanos.
Uma das provas vivas deste incêndio é que as folhosas fizeram o seu papel. Em certas encostas foram elas que derrotaram o poder das chamas, sem dúvida nenhuma.
A GUARDA: Quais são as grandes apostas do Plano e Orçamento da Câmara de Manteigas para 2023?
Flávio Massano: Nós estamos a preparar o orçamento e no fundo temos um grande objectivo, mas não sei se o conseguiremos iniciar em 2023, que é a reformulação do centro da Vila.
Não temos uma Praça Central da Vila e nós gostaríamos, com isto, dar resposta a dois problemas. O primeiro é o problema da falta de estacionamento, no cento da vila. Neste momento é um problema grave.
Gostaríamos também de resolver o trânsito. Queremos tirar os carros da Rua 1º de Maio e da Praça Central e queremos colocar a rua ao serviço do peão e da pedonalidade e do comércio. No fundo queremos aproximar o comércio das pessoas, da rua, abrir as suas portas para o mundo.
Sentimos que o nosso centro da vila, onde temos os nossos principais agentes económicos a servir ao público, ou seja, lojas de comércio tradicional e restaurantes, estão muito fechados sobre si mesmos porque a rua assim o exige. Tudo é reservado para os carros, para o estacionamento e temos pouco espaço para andarmos na rua. Esta é uma das grandes obras. Lançámos já o concurso de ideias. É um concurso de concepção que terminará a sua primeira fase de recepção de candidaturas em Janeiro.
A partir deste concurso de concepção vamos adjudicar o projecto vencedor e vamos executá-lo. Ficaria muito contente se ainda, em 2023, começássemos a mover areias nesse sentido.
Para além disso temos também outro projecto já concluído em termos de projecto de engenharia e arquitectura que é a Praia Fluvial de Manteigas. Até é um pedacinho caricato, pois com a nascente do rio Zêzere temos a água em estado puro, mas a primeira praia fluvial que temos é a da Relva da Reboleira, onde também queremos investir. Em 2023 queremos lançar o arranque desta obra da Praia Fluvial de Manteigas, junto ao Parque da Várzea.
Para além disto, temos muito para reconstruir. Ficámos com alguns bens danificados. Perdemos estradas, perdemos caminhos, perdemos o complexo do Skiparque. Vai ser um ano onde queremos reconstruir. Queremos repor o que o incêndio nos tirou, repor o que as enxurradas nos tiraram. Por essa via, vamos ter o maior orçamento dos últimos anos, provavelmente, se calhar, até o maior de sempre desde que há memória porque há muito para fazer. Também temos candidaturas ao Fundo de Emergência Municipal que vão comparticipar esta reconstrução a 60%, tendo a Câmara Municipal que assumir 40%. Só por esta via, podemos estar a falar de um acréscimo orçamental, embora não seja tudo em 2023, de três milhões de euros. Já estamos a falar de uma dimensão de recuperação, desta vila, muito grande.
No fundo são estas as grandes obras. Mas o mandato é muito mais do que grandes obras. Nós sempre nos comprometemos com a mudança de paradigma, com a mudança dos eventos e com a procura de maior qualidade, com a criação de roteiros turísticos, com a criação e formação de guias turísticos - que neste concelho não existe -, com o apoio à actividade económica e turística.
Temos algumas candidaturas já submetidas, outras em planeamento e execução. Temos também eventos novos que vamos lançar no próximo ano. Penso que 2023 vai ser um ano de afirmação deste executivo. O primeiro ano também foi para conhecer os cantos à casa, conhecer a função e, agora, estamos convencidos que, até 2025, muita coisa vai acontecer em Manteigas e que vamos liderar essa mudança que tanto precisamos.
A Guarda: Um ano depois de estar à frente da Câmara Municipal de Manteigas é um Presidente feliz?
Flávio Massano: Eu sou uma pessoa feliz. Sempre me considerei feliz, mesmo com muitas adversidades que já fui tendo ao longo da vida. É assim que encaro a vida, por si só. Como Presidente, continuo a ser uma pessoa feliz mesmo quando as coisas não correm tão bem, ou não correm como o esperado. Quem vem para esta função tem de perceber que 90% dos dias são dias de frustração, são dias de tentar encontrar forças para levar o nosso projecto avante sem desvios de atenção. Isso é difícil. É difícil para mim, é difícil para políticos experientes, é difícil para toda a gente que está nesta vida política. No final do dia posso dizer que sou uma pessoa feliz, um Presidente feliz. O meu principal objectivo, o meu principal desígnio nesta função é para além de sentir que eu sou feliz é que as pessoas que, no fundo, governo aqui em Manteigas se sentem felizes. E isso é uma aposta deste mandato, fazermos com que as pessoas tenham orgulho de viver em Manteigas, gostem de viver em Manteigas, que se sintam felizes por viver em Manteigas. Eu acho que isso é o principal desta minha experiência. Eu gostava de sentir que as pessoas estão felizes.
Acho que essa é uma boa forma de terminarmos a entrevista porque, realmente, toca num ponto essencial, que é as pessoas sentirem-se bem, gostarem de viver em Manteigas, estarem felizes, sentirem que têm tudo aquilo que precisam nesta pequena Vila. Não é fácil. Nós sabemos muito bem que, mesmo na Guarda e na Covilhã, que são cidades maiores, nós não temos tudo. Eu gosto de pensar que as pessoas têm aqui tudo aquilo que é essencial, tudo aquilo que precisam, que valorizam e, no final do dia, se sentem pessoas mais felizes.