”Entrevista: Alexandre Gonçalves, Conselho Editorial da Editora “Lugar da Palavra” na edição da Antologia Poética “Mimos de Setembro”


Alexandre Gonçalves é de Aldeia do Bispo, concelho do Sabugal. Tem Licenciatura em Relações Públicas no Instituto Superior de Administração, Comunicação e Empresa e Pós-graduação em Reabilitação Patrimonial na Fundação Frei Pedro.Entre muitos outros cargos é representante oficial da “Chiado Books”; colaborador residente em vários jornais e numa rádio local; secretário da Direcção do Centro Cultural da Guarda; membro do Conselho Editorial da Editora “Lugar da Palavra”; membro do Conselho Consultivo da Associação Malcata com Futuro; e chanceler da Confraria do Cabrito na Brasa-Sabugal.Gosta de ler, escrever, cantar, pescar, fazer trabalho voluntário, cozinhar e fazer caminhadas.
A GUARDA: Alexandre Gonçalves integra o Conselho Editorial da Editora “Lugar da Palavra” na edição da Antologia Poética “Mimos de Setembro”. Quais as funções deste Conselho Editorial?
Alexandre Gonçalves: O Conselho Editorial é composto por três elementos e tem a função de pronunciar-se em relação à qualidade dos textos com vista à sua inclusão, ou não, na Antologia Poética. Os principais critérios são: a criatividade; o estilo e a originalidade do tema; a adequação e análise morfológica e sintáctica; a riqueza do conteúdo.Neste momento, o Conselho Editorial já iniciou a sua função, ou seja, a de seleccionar os poemas que vão integrar a Antologia Poética “Mimos de Setembro”. Sinceramente é uma tarefa gratificante e de enorme responsabilidade. A leitura atenta e a integral exigência quanto à análise das diferentes configurações de cada poema, sem nunca renunciar ao sigilo e ao respeito ético em relação aos autores, são condições que perfilhamos ininterruptamente. É seguramente um privilégio fazer parte de tão distinta e valorosa equipa. Todos os autores estão de parabéns.Pertencer ao Conselho Editorial é uma honra, pois acaba por ser o reconhecimento do meu trabalho enquanto escritor, alargar a minha experiência no mundo das letras e enriquecer o meu currículo.
A GUARDA: Como é que aparece a sua ligação à Editora “Lugar da Palavra”?
Alexandre Gonçalves: Sou autor representado em dezenas de Antologias de Poesia que têm o carimbo da Editora “Lugar da Palavra”. Os responsáveis da “Lugar da Palavra” lançaram-me o repto, que imediatamente aceitei, de integrar o Conselho Editorial na edição da Antologia Poética “Mimos de Setembro”.Também sou autor representado em diversas Antologias de Poesia, de Contos, de Cartas de Amor e de Micronarrativas Ficcionais que têm a chancela da “Chiado Books”, Editora que represento, desde 2013, na região centro do País.Até ao momento, e para além de semanalmente publicar crónicas em vários jornais, escrevi quatro livros, participei em várias antologias, apresentei, enquanto representante da “Chiado Books”, cerca de uma centena de livros de outros autores, escrevi recensões críticas, prefaciei obras literárias, e estive presente em inúmeras feiras e encontros literários, apenas faltava integrar o Conselho Editorial de uma Editora de renome. Felizmente surgiu a oportunidade e estou neste projecto com empenho e dedicação.As antologias assumem uma extraordinária importância não só para os novos autores que desejam entrar no mercado editorial e ter um livro publicado, como também para os autores “consagrados”, pois as mesmas robustecem a presença destes autores no intrincado mercado editorial. As Antologias de Poesia acabam por ser um estímulo à literacia, podendo ser uma espécie de trampolim para muitos escritores.Escritores com características diversas acabam por outorgar grandeza e relevância às antologias. Facilmente encontramos textos arrojados que patenteiam uma procura clara e incessante de produção de conteúdo que seja reconhecida pela qualidade e pela estética. As antologias são um produto literário, fruto de projectos democratizados.
A GUARDA: Como surgiu o gosto pela poesia e o que é que o seduz nesta forma de escrita?
Alexandre Gonçalves: Apesar de não ser o género literário que mais apreciava, sempre li poesia. Comecei a escrever poesia há sensivelmente oito anos e esse “deleite” tem vindo a aumentar todos os dias. Os momentos nos quais a poesia está presente transformam-se em autênticos espaços de revelação, de libertação, de prazer e de imaginação. Residir na poesia é residir no mundo. A poesia não prova nada, sendo simplesmente e naturalmente aquilo que o homem sente e expressa.A poesia tem um incontornável e inexplicável encanto que nos metamorfoseia, nos ilumina e nos faz reflectir. A poesia é inútil, daí a sua incomensurável grandeza e beleza. O maravilhoso da poesia talvez seja mesmo a sua inutilidade. A poesia é a mais inútil e a mais transformadora manifestação do homem.A imaginação é que vai buscar o poeta. O poeta não tem escolha, foi seleccionado. Quando me apaixono por um determinado poema, e independentemente da vontade do autor, o mesmo passa a ser meu de um modo muito especial, uma vez que esse poema guarda certamente alguma substância do meu próprio ser. A poesia não me sai da cabeça, recusa-se a ir embora, teima em ficar comigo e força-me a voltar a ela.A poesia desperta sentimentos e promove o amor, sendo uma manifestação de formosura e estética retratada pelo poeta em forma de palavras.A poesia é conhecimento, agitação, afogo, entusiasmo, sedução, indecisão, cogitação e prazer. Caminhos descobertos e encobertos, umbrosos ou soalheiros, que nos lapidam.O actual saber “imediato” e “produtivo”, que municiona o mercado de consumo, talvez tenha distanciado, das práticas e procedimentos escolares, a experiência poética alicerçada na construção de poemas e respectivas declamações. A poesia é fundamental para a sociedade e os alunos devem estar próximos da mesma, de modo a aprimorar e solidificar a tão necessária, apregoada e oportuna ligação à literacia.Coordeno, enquanto Técnico Superior na Divisão de Educação, Intervenção Social e Saúde da Câmara Municipal da Guarda, Oficinas de Escrita na Casa de Saúde Bento Menni e no Estabelecimento Prisional da Guarda, nas quais se realizam exercícios que têm como objectivo principal motivar os participantes a escrever textos individuais ou colectivos. Os participantes seleccionam os melhores textos e no final editamos um livro colectivo. Nas Oficinas de Escrita, a poesia tem um papel fundamental, sendo a leitura de poemas usada como estímulo.Também coordeno Oficinas de Estimulação Cognitiva nos Centros de Dia da Arrifana, Casal de Cinza e Vila Garcia, espaços nos quais a poesia está frequentemente presente. A poesia contribui para melhorar a qualidade de vida dos idosos.Desde 2018 foram editados, no âmbito das Oficinas de Escrita e para além dos livros colectivos, três livros individuais de poesia, dois na Casa de Saúde Bento Menni e um no Estabelecimento Prisional da Guarda.
A GUARDA: Mas também escreve regularmente textos de opinião, em vários jornais da região?
Alexandre Gonçalves: Tenho cerca de 850 artigos de opinião publicados em jornais locais, regionais e nacionais, assim como em revistas “tauromáquicas”. Também tenho um espaço de opinião, “Raia Inquieta”, na Rádio Fronteira em Vilar Formoso.Os artigos de opinião apelam à reunião da razão, da emoção e da meditação. Quem os escreve palmilha a cidade, a região, o País e o mundo. Aquilo que verdadeiramente cativa e estimula o leitor é o ponto de vista, a cogitação e a independência do autor.O artigo de opinião é uma espécie de compromisso, no qual não existem mediadores, autores subentendidos, opiniões indulgentes, opiniões pérfidas e narradores, uma vez que se trata de um texto autenticado por um olhar que contempla o convívio social e os ruídos do território. A liberdade, inerente aos artigos de opinião, proporciona o envolvimento do autor em diversos caminhos, sem que para isso exista a necessidade de o mesmo se inquietar com os destinos que escolhe nesses próprios itinerários. Nos artigos de opinião não há um testemunho sem rosto, mas sim o testemunho de uma pessoa real.Os artigos de opinião também constituem um mecanismo importante para afinar a população, acompanhar o progresso e questionar as decisões políticas, económicas, sociais, religiosas e culturais de um determinado território.Ser cidadão significa estar vigilante aos problemas do mundo e dar o nosso contributo para a resolução dos mesmos. Somente um cidadão atento, exigente e informado consegue fazer escolhas conscientes e verdadeiramente livres.
A GUARDA: É autor de várias publicações e o seu nome está ligado à literatura contemporânea do distrito da Guarda. Tem mais alguma edição programada para os próximos tempos?
Alexandre Gonçalves: Tenho sensivelmente cem poemas da minha autoria e pretendo publicar, no final do ano de 2021 e no Concelho do Sabugal, o primeiro livro de poesia.De salientar que na qualidade de representante oficial da “Chiado Books” entusiasmei e direccionei inúmeros escritores de toda a região centro do País. Por vezes, e para além do talento, é necessário ter alguém que nos oriente e incentive. Quem se movimenta no mundo das letras tem forçosamente de ser perseverante pois, em determinadas ocasiões, e para que tenhamos algum sucesso, temos que ser nós os maiores admiradores do nosso talento e do nosso trabalho.
A GUARDA: A Guarda continua a ter bons escritores e pensadores?
Alexandre Gonçalves: A Guarda continua a ter escritores de excelência e pensadores extraordinários. Facilmente referia aqui alguns nomes, mas não o vou fazer. Assistimos amiudadamente ao lançamento de livros excepcionais no nosso Distrito.Os encontros de poesia, as feiras do livro, a declamação de poemas nas ruas, as tertúlias de poesia, as Antologias de Poesia, os encontros de escritores e as Oficinas de Escrita constituem algumas configurações que devem ser concretizadas com maior assiduidade no nosso território, pois contribuem, de modo considerável, para a promoção dos nossos escritores e pensadores.Infelizmente tornou-se vulgar falar sobre quase todos os assuntos de forma politicamente correta. O politicamente correto rotula e censura comportamentos, procedimentos e indivíduos.O politicamente correto agasalha a pretensão de se elevar a pensamento único, constituindo uma espécie de nova ideologia despótica. Na realidade, o politicamente correto não tem quartel, partido político ou dirigente, procurando a colonização cultural, bem como determinando o silêncio e as condutas reguladas que apenas nos permitem dizer o mesmo.O politicamente correto precisa de ser pelejado, uma vez que o mesmo procura demolir uma das configurações mais importantes do ser humano, o pensamento individual. Infelizmente nem todos os indivíduos têm coragem e valentia para usar o pensamento individual, todavia aqueles que o usam conseguem fazer toda a diferença na sociedade. Os homens jamais são iguais, e os mais destemidos levaram a humanidade constantemente ao colo. Os politicamente correctos assassinam a liberdade criativa e praticam terrorismo intelectual. Ser livre, sem pertencer a “bandos”, constitui uma condição estupenda.Também é fundamental distinguir o vassalo do cidadão. Enquanto o primeiro obedece ao poder instituído, o segundo tem a noção de que hospeda poder e capacidade para metamorfosear a vida de uma aldeia, vila ou cidade. A participação de todos os cidadãos é capital para melhorar o funcionamento da sociedade e alcançar contextos volumosos de desenvolvimento social e humano. Os cidadãos devem exigir permanentemente um futuro melhor e, simultaneamente, ajudar a construir esse próprio futuro. O cidadão, ao contrário do vassalo, é aquele que não desiste, desprezando as distinções, as conveniências e as prerrogativas. O cidadão, ao contrário do vassalo, é a demonstração cabal de que existem outros caminhos.