Sílvia Moreira, Biotecnóloga, desempenha funções no LAQV-REQUIMTE (Laboratório Associado para a Química Verde - Rede de Química e Tecnologia) da Universidade de Aveiro.


Sílvia Moreira é natural de Santarém mas sempre se considerou fornense, pois vive em Fornos de Algodres desde que tinha um ano de idade. Fez a licenciatura em Biotecnologia, e o Mestrado em Biotecnologia Alimentar, na Universidade de Aveiro. Em Fevereiro, terminou o Doutoramento em Ciência e Tecnologia Alimentar e Nutrição, também na Universidade de Aveiro, onde está desde 2009, e onde é, actualmente, bolseira de investigação. Ocupa os tempos livres com a leitura, fotografia, geocaching, nas actividades da Juventude Mariana Vicentina e do Agrupamento de Escuteiros 1393 de Fornos de Algodres.
A GUARDA: Como Biotecnóloga desenvolve e aplica tecnologias nas áreas da saúde, química, ambiental, agricultura, etc. O que é que está a investigar actualmente?
Sílvia Moreira: A biotecnologia tem vários ramos. O meu ramo de especialização foi o Alimentar, e toda a minha formação tem andado em torno dessa área. No entanto, como biotécnologos, somos chamados a ser “canivetes suíços”, ou seja, somos chamados a tentar compreender o que nos rodeia, procurando arranjar soluções e respostas para as mais variadas perguntas. Actualmente estou a trabalhar num projecto como bolseira de investigação com o objectivo final de reunir e optimizar um conjunto de extractos de microalgas com características e actividades de alto valor acrescentado (por exemplo, actividades biológicas de interesse para várias indústrias, como a actividade antioxidante ou até actividade anti-tumoral).
A GUARDA: Quais os projectos ligados à Biotecnologia em que tem estado envolvida?
Sílvia Moreira: Tendo em conta a minha formação, todos os projectos a que estive associada tinham como elo de ligação a indústria alimentar. Actualmente a biotecnologia é chamada para resolver questões no âmbito do desenvolvimento de novos produtos, a melhoria de produtos já existentes, ou até a implementação de novas tecnologias mais eficazes e amigas do ambiente.
A GUARDA: Numa altura em que todos lutamos contra um inimigo invisível, como Biotecnóloga como encara a situação provocada por este vírus?Sílvia Moreira: Como biotecnóloga, o meu papel é tentar perceber que vírus é este, como se transmite e como o poderemos combater. É tentar reunir todas as evidências científicas de modo a dar respostas aos comportamentos que nos indicam que devemos ter. Dizem-nos que temos de lavar as mãos com sabão, mas não nos dizem porquê. E como consequência disso há cada vez mais “soluções milagrosas”, como o vinagre – que neste contexto não é de todo eficaz. O mais importante é que a população se mantenha BEM informada. Todos devem procurar informações fidedignas e não acreditar em tudo o que lêem e ouvem. A boa informação tem de ser a arma principal no combate contra este novo coronavírus, já que é a informação que nos permite perceber o porquê e o como.Não devemos apenas seguir as ordens que nos são dadas; devemos perceber o porquê de ter que as seguir. Só percebendo o porquê, é que nos tornamos conscientes da necessidade do como.A GUARDA: O que é este vírus?
Sílvia Moreira: O vírus de que tanto se fala tem por nome SARS-CoV-2 e dá origem à doença respiratória chamada COVID-19; a doença é chamada de COVID-19 porque foi primeiramente reportada em 2019; Já o termo “corona” é devido à sua estrutura, que todos vemos na televisão, em forma de coroa; “Coronavírus” é o nome de uma família de vírus, ao qual o vírus SARS-CoV-2 pertence (razão pela qual este vírus que tanto ouvimos falar é muitas vezes referenciado como “novo coronavírus”). A esta família pertencem outros vírus, como o HKU1, NL63, 229E e o OC43 que têm circulado em humanos há muitos anos, mas não são tão conhecidos por apenas causarem doenças respiratórias fracas a moderadas (relacionados com a típica gripe comum); Também os vírus SARS-CoV (síndrome respiratória aguda grave, que apareceu em 2002) e MERS-CoV (síndrome respiratória do Médio Oriente, de 2012), são vírus desta família que levam ao desenvolvimento de doenças respiratórias agudas (tal como o famoso SARS-CoV-2); É originário de morcegos, e não há evidências de que terá sido criado em laboratório - os coronavírus que causam infecções respiratórias graves são zoonoses, ou seja, originam doenças que começam em animais infectados e são transmitidas dos animais para as pessoas.
A GUARDA: Como se transmite?
Sílvia Moreira: Este vírus, como qualquer outro vírus, não se multiplica sozinho, ou seja: Se alguém portador do vírus tossir para cima de uma superfície (mesa, telecomando, interruptores, ou até uma embalagem de farinha na prateleira de supermercado), o vírus não se vai multiplicar sozinho. Neste caso, o número de partículas de vírus que ali foram deixadas, irá manter-se e irá inactivar-se ao fim de algum tempo (de horas a dias, dependendo da superfície); Para se multiplicar, o vírus precisa de entrar nas nossas células (precisa de um hospedeiro). As células com as quais tem maior compatibilidade, são as mucosas – boca, nariz, olhos. Serão estas células que têm as “portas” que as “chaves” (proteínas – as “antenas” com que o vemos representado) do vírus conseguem aceder e entrar.É dentro das nossas células, que o vírus é capaz de utilizar a “maquinaria” aí existente para uso próprio, ou seja, para se multiplicar. É ao utilizar as nossas células que o vírus leva à sua morte, enquanto passa para outras células adjacentes, provocando a morte das mesmas, e por aí adiante.Ao tossirmos/espirrarmos iremos ajudar à propagação do vírus – daí é tão importante manter a distância social e a etiqueta respiratória.Pessoas portadoras deste vírus podem ter poucos ou até nenhum sintoma! E ainda assim, como o vírus está a utilizar as suas células para se multiplicar, também estas pessoas poderão transmiti-lo a outras pessoas, mesmo sem o saber.Os sintomas podem incluir febre, tosse e falta de ar. Os pacientes com doença mais grave podem ter linfopenia e pneumonia. O tempo exacto de incubação não foi ainda determinado: as estimativas variam de 2 a 14 dias. 
A GUARDA: E como pode ser combatido?
Sílvia Moreira: Seguindo as indicações e recomendações da DGS, que já todos deveríamos recitar de cor: Lavar as mãos. Porquê? Porque a cápsula que reveste o vírus é de natureza lipídica - é uma gordura. A espuma que o sabão gera ao esfregarmos as mãos, é capaz de “dissolver” a gordura, e portanto, irá ajudar a destruir a cápsula do vírus, e consequentemente, este será inactivado.Desinfectar as mãos com álcool ou álcool gel. Porquê? Para além da cápsula lipídica, as “antenas” com que vemos o vírus representado são maioritariamente proteínas – o álcool a 65-75% (abaixo desta percentagem não tem efeito e acima evapora demasiado rápido, pelo que perde eficácia) – é capaz de desnaturar estas proteínas, que deixaram de funcionar como “chaves” de entrada nas nossas células. E não, o vinagre não é eficaz contra este vírus (!!) uma vez que é um ácido e não um solvente apolar (como o álcool).Etiqueta respiratória – espirrar e tossir para um lenço ou cotovelo. Porquê? Porque o vírus está presente nas gotículas que expelimos ao tossir. Ao tossirmos para um lenço estamos a evitar que as gotículas com o vírus activo se espalhem para outros locais e assim evitamos que se transmitam para outras pessoas.Distanciamento social. Porquê? Mesma razão da etiqueta respiratória. Acrescentar ainda que com o distanciamento social, deixamos de ser “fósforos” que rapidamente transmitem o fogo quando perto uns dos outros. Ao nos afastarmos, o vírus não terá hospedeiro para atacar, pelo que não se poderá multiplicar, e portanto, acabará por morrer.Não tocar com as mãos na boca, olhos e nariz. Porquê? Porque o vírus, tal como explicado acima, é apenas “absorvido” pelas células das mucosas (olhos, nariz, boca). Não é absorvido pela pele (se esta estiver intacta e sem feridas) pelo que podemos usar e abusar do sabão e do álcool para limpeza e desinfecção.Actualmente só existe tratamento de suporte, ou seja, ainda não existe nenhuma vacina nem antiviral disponíveis, pelo que o tratamento é feito aos sintomas e não directamente ao vírus. Por ser um vírus e não uma bactéria, a toma de antibióticos não tem efeito nenhum! No entanto, várias equipas de investigadores estão a fazer progressos significativos e existem já algumas vacinas a ser testadas.
A GUARDA: O uso de máscara é ou não importante como prevenção?Sílvia Moreira: O uso de máscara é bastante controverso. Enquanto que uns defendem que deve ser usada por todos, outros dizem que apenas deve ser utilizado por pessoas infectadas. Apesar de a OMS (e de a DGS que segue as indicações da OMS) já ter actualizado as suas indicações – inicialmente, a máscara seria apenas utlizada por pessoas portadoras do vírus e por todos os profissionais de saúde; agora coloca-se em cima da mesa a possibilidade de todas as pessoas terem de a usar no seu dia-a-dia.A verdadeira questão é que este vírus se propaga por gotículas e portanto apenas as máscaras impermeáveis e com algum tipo de filtro é que poderão ajudar na protecção individual; sendo que as que têm filtro, este é unidireccional. Isto significa que, quem utiliza máscara protege os outros dos seus vírus, mas as máscaras permitem respirar o que vem de fora a quem a usa. Isto indica que se todos usarmos, sem excepção, há um aumento da probabilidade de alguém contaminado usar e assim proteger quem não está infectado.O que é muito importante realçar, é que as máscaras, apesar de poderem ser um óptimo instrumento na prevenção de contágio, devem ser bem utilizadas para serem eficazes. Para isso: não podem ser lavadas (são descartáveis, de utilização única - as fibras da máscara degradam-se com a humidade e esta perde a sua capacidade de retenção); devem ser utilizadas por poucas horas e apenas para as tarefas essenciais; não tornam as outras medidas obsoletas – ou seja, devem na mesma seguir com a etiqueta respiratória e a desinfecção e lavagem constante das mãos; não é por usar uma máscara que pode falar a menos de 2 metros com outra pessoa; as máscaras acumulam partículas (os vírus), tornando-se uma fácil fonte de contágio; as máscaras caseiras não são impermeáveis, pelo que não protegem contra a emissão de gotículas; não devem ser tocadas durante a sua utilização nem ao serem retiradas (devem ser retiradas pelos elásticos).O problema é que as pessoas podem não saber usar uma máscara correctamente e ficam com uma falsa sensação de protecção (tal como com o uso de luvas). No entanto, ainda não há evidências de que o uso generalizado de máscaras é benéfico ou não nesta fase.
A GUARDA: Considera que as pessoas estão a lidar bem com os constrangimentos sociais provocados por este vírus?Sílvia Moreira: Este vírus está a causar muita entropia na vida de toda a população. Seja dos profissionais de saúde, dos retalhistas, das autoridades de segurança e de tantos outros que é impossível numerar, que viram os seus horários alargados, dificultando muitas vezes o contacto com a família e o devido descanso; seja de todos quantos viram o seu emprego ser-lhes retirado; ou de todos os que estão em casa a cumprir o seu dever cívico ao isolar-se. A saúde mental é tão importante quanto a saúde física e há inúmeros conselhos a seguir, como o manter rotinas, manter horários e o tentar-se distrair nas horas vagas com alguma coisa que o faça feliz. É difícil vermo-nos arrancados das nossas rotinas, mas temos de manter a esperança de que não será permanente e que, como tudo o que há de mau, haverá uma luz ao fundo do túnel, e há-de passar.Devemos mantermo-nos a salvo, mantermo-nos em casa. E se precisarmos de sair para trabalhar como tantos outros, façamo-lo de forma consciente e cuidada.Esta Páscoa vai ser diferente para todos. Pede-se a TODA a gente, emigrantes e imigrantes: mantenham-se longe das vossas terras natais. Devemos celebrar esta Páscoa longe dos nossos para que no futuro possamos passar muitas mais todos juntos.
Este é um vírus que veio para ficar ou vai desaparecer com o tempo?Sílvia Moreira: Mais uma vez um tema bastante controverso. Por ser um vírus em constante mutação (está constantemente a mudar e o vírus que hoje está em Portugal já não é o mesmo que esteve na China, nem possivelmente será igual ao que está em Espanha), é muito difícil saber o que o afecta e o que o destrói. Há artigos científicos que nos dizem que há possibilidade de, tal como o vírus da gripe, ser sazonal (o que indica que com o tempo quente poderá diminuir a sua actividade). No entanto este vírus não é como o vírus da gripe. Não é nada do que a comunidade científica alguma vez viu, senão já haveria alguma forma comprovada de o inactivar. Resta-nos esperar para ver.Sabemos é que não deverá desaparecer. O que irá provavelmente acontecer, é cada um de nós ganhar imunidade (adquirida por contacto directo com o vírus ou por vacina). O que irá acontecer é que cada um de nós vai ser mais ou menos susceptível de ser contagiado e de contrair sintomas (tal como acontece com as constipações e as gripes todos os anos, uma parte da população fica constipada, outra não). Tudo depende do organismo e do sistema imunitário de cada um.