A Biblioteca Municipal da Guarda existe desde 1880, ano em que a Câmara Municipal deliberou aceitar a criação de uma Biblioteca Municipal,

proposta a 4 de maio desse ano pela Junta Geral do Distrito, que contribuiu com um conto de réis para a compra de livros. A primeira instalação da biblioteca ocorreu no edifício do antigo Governo Civil da Guarda.Em 1962, a Fundação Calouste Gulbenkian inaugurou a Biblioteca Fixa nº 41, que partilhava o mesmo espaço da Biblioteca Municipal, no mesmo local.No ano seguinte, a biblioteca mudou, pela primeira vez, de instalações, e foi ocupar um edifício na Praça Velha, junto à Sé da Guarda.Em 1974 dá-se a segunda mudança, desta vez para o ginásio da antiga Escola do Magistério Primário, atual Escola do 1º CEB Augusto Gil.Em 1986 voltou a mudar de instalações para o Solar Teles de Vasconcelos. Aqui funcionaria até à inauguração da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, a 27 de novembro de 2008, instalada na Quinta de Alarcão, na Rua Soeiro Viegas.A Biblioteca Municipal tem por patrono o Professor Eduardo Lourenço, já que pretende homenagear o insigne ensaísta, professor universitário, filósofo e intelectual, nascido em São Pedro do Rio Seco, concelho de Almeida, distrito da Guarda.No ano de 2008, o Professor Eduardo Lourenço ofereceu um espólio à Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço constituído por cerca de 3 000 livros e revistas que abrangem variados assuntos: Literatura, Teoria da Literatura, Sociologia/Pedagogia/Economia/Política, Arte, Religião, Filosofia, Generalidades e Linguística. Destes, cerca de 20% foram oferecidos pela sua esposa, Annie Salomon de Faria. Alguns livros são autênticas preciosidades pois contêm dedicatórias autografadas de grandes escritores, como Vitorino Magalhães Godinho, Vergílio Ferreira, Jorge de Sena, Urbano Tavares Rodrigues, Pedro Tamen, Manuel Alegre, Eugénio de Andrade, José Saramago, Sophia de Mello Breyner Andresen e António Quadros, entre outros.Em 2002, aquando de um internamento de Eduardo Lourenço em Coimbra, a esposa, Annie Salomon de Faria confidenciou que Eduardo Lourenço queria doar os seus livros à Biblioteca Municipal da Guarda. Mais tarde, Eduardo Lourenço confirmou essa vontade, adiantando que a Câmara Municipal tinha de ir buscar os livros a Vence, cidade francesa onde morava.Em Abril de 2007, deram entrada na Biblioteca Municipal cerca de três mil obras do seu vasto acervo bibliográfico. Em 23 de maio de 2008, por altura do seu 85º aniversário, formalizava-se a doação, assumindo a CMG o tratamento das obras e instalar o Fundo Eduardo Lourenço. Este fundo reúne todas as obras doadas por Eduardo Lourenço e encontra-se reunido numa zona específica da biblioteca no que, informalmente e carinhosamente, se convencionou denominar o “Cantinho de Eduardo Lourenço”.Os livros, vindo da sua biblioteca particular em Vence, França, foram escolhidos um a um, de forma criteriosa e cuidada pelo Professor Eduardo Lourenço e revelam a estima que nutre pela Guarda.“Com esta doação estou dizendo adeus a mim mesmo e estou preparando o mais confortável dos túmulos”, afirmou Eduardo Lourenço, quando discursava na sessão que assinalou a entrega oficial dos livros. Contudo, salientou que o facto de serem disponibilizados na biblioteca que terá o seu nome, “é como dar-lhe uma outra vida, uma memória futura”, porque “esses livros serão lidos por outros mais jovens”.O filósofo e ensaísta fez uma confissão acerca das obras que doou: “São os livros dos meus amores, dos meus estudos, das minhas paixões literárias”.O gesto “é uma maneira de consagrar à capital do distrito onde eu nasci, uma função de preservar alguma coisa do menino que eu fui nesta cidade, onde entrei para o Liceu, aos dez anos, onde fiz a terceira classe e a quem me ligam tantos laços afectivos”, acrescentou.Para além das singulares dedicatórias, os livros que constituem o Fundo Eduardo Lourenço, continham no seu interior inúmeras notas, cartas, recortes de jornais e cartões-de-visita, entre outros. Dispersos que o patrono da BMEL foi guardando ao longo de décadas, entre as páginas dos seus livros. Uma parte deste material que constituiu a mostra “Entre Páginas”, realizada no âmbito das comemorações dos 813 anos da atribuição do Foral à Guarda (novembro de 2012). Assim, a BMEL organizou uma exposição singular em torno dos livros doados por Eduardo Lourenço à biblioteca municipal da sua cidade.Mais tarde realizou-se nova exposição, “O esplendor da dispersão”, nos mesmos moldes.Recorda-se que a lista dos livros oferecidos em 2008 está inserida na obra Leituras de Eduardo Lourenço: um labirinto de saudades, um legado com futuro / Coord. Virgílio Bento. Guarda: Centro de Estudos Ibéricos, 2008, p 113-205Outras ofertas se seguiram, de modo regular. Uma segunda oferta concretizou-se no ano de 2014. Neste ano foram oferecidas 55 caixas de livros, num total estimado de 2 500 livros.Ao longo dos anos têm-se sucedido mais ofertas, de caráter mais pontual e em menor quantidade. Até agora a BMEL recebeu cerca de 9 000 obras oferecidas pelo Professor Eduardo Lourenço.Ainda a propósito do Fundo Eduardo Lourenço, decorre neste momento a Residência Artística “Mãos que escrevem História”, por Anabela Matias. Esta residência literária pretende estudar e tratar uma parte do espólio de Eduardo Lourenço (cartas, bilhetes, apontamentos, notas dispersas…), tendo como objetivo final a produção de um conto inédito, recorrendo ao cenário narrativo e imagético do espaço beirão da cidade da Guarda.António José Ramos de OliveiraTécnico Superior de Biblioteca e Municipal