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Edição de 02-09-2010
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Arquivo: Edição de 04-02-2010

SECÇÃO: Entrevista

Manuel Joaquim Geada Pinto – Responsável pela Escola Regional Dr. José Dinis da Fonseca

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O Outeiro de São Miguel é “uma escola de referência que teve sempre a preocupação de educar”

Manuel Joaquim Geada Pinto é o responsável pela Escola Regional Dr. José Dinis da Fonseca, conhecida por Outeiro de São Miguel. Natural de Orca, concelho do Fundão, frequentou os Seminários do Fundão e Guarda, sendo ordenado Padre a 29 de Julho de 1951. É Pároco de Arrifana (Guarda), Director do Jornal Amigo da Verdade e Oficinas de São Miguel. É cónego do Cabido da Sé.
A Guarda: Quem é Manuel Joaquim Geada Pinto?

Geada Pinto: Manuel Joaquim Geada Pinto nasceu na freguesia da Orca, concelho do Fundão, arciprestado de Alpedrinha. Filho de pais de condição modesta, mas crentes fervorosos e respeitados na terra, sentiu-se sempre um menino feliz, vivendo as limitações do tempo, mas sem limites ao sonho.

A Guarda: Qual a sua ligação à Diocese da Guarda?

Geada Pinto: A Orca fica num extremo da diocese da Guarda. Para Oriente e Sul, é já a diocese de Portalegre e Castelo Branco, com as paróquias circundantes de S. Miguel d’Acha e Lardosa, cujos párocos faziam, no meu tempo de criança, serviço pastoral de proximidade na minha freguesia, num entendimento perfeitamente normal com o P. João Barroso, meu pároco, que rezava muito, cantava muito bem, e trazia as crianças como eu nas abas da sua batina. Depois, naquele tempo, uma das orações imperadas, na Missa, era a oração pelo Bispo, no caso, o Bispo da Guarda, D. José Alves Matoso.

A Guarda: Como é que foi o seu percurso académico?

Gerada Pinto: Fiz a instrução primária na minha aldeia, com o saudoso professor Alfredo que passava todos os dias à porta da minha casa, a caminho da escola. Lembro-me de ter chorado muito, quando o meu pai me foi matricular, porque dizia eu: “que vou lá fazer à escola, se já sei ler”? Meu pai ensinara-me a ler nos jornais e também me ensinara a ler música, no pentagrama, e eu, com cinco anos, julgava-me um sabichão que não precisava de escola... O professor entregou-me o livro da primeira classe e, como o li todo de seguida, passou-me logo para a segunda e lá fui andando... As pessoas da terra achavam-me graça e mandavam-me cantar, muitas vezes, o Tantum ergo em latim, bem como as respostas da Missa, rindo-se muito, quando eu reproduzia: “Et plebs tua laetabitur in te”... E assim fui indo, com aquela tina de querer ser padre. Em casa, todos gostávamos de cantar: meu pai tocava muito bem quase todos os instrumentos, sobretudo violino e flauta, instrumentos que ele próprio construíra, de raiz. A natural afeição à música, minha e dos meus irmãos, vem daí. Quando o P. Barroso, finda a instrução primária, me propôs ir fazer exame de admissão ao Seminário, achei a coisa mais natural do mundo.
No Seminário do Fundão, que frequentei durante cinco anos, fui um aluno normal, não muito estudioso, mas dado, cedo, às literatices, e cantava como um rouxinol... Lembro-me de me trazerem à Guarda, a um espectáculo no velho Coliseu, comemorativo dos 25 anos do Seminário do Fundão, a cantar um solo de tiple, enquandrado pelos orfeões conjuntos dos Seminários Maior e Menor. Soube, depois, que uma das actividades pontuais dos padres do Seminário, após nos acompanharem, à noite, ao dormitório, era irem à minha carteira, na sala de estudo, espreitar o meu diário, numa agenda missionária, onde eu apontava as minhas vivências: esperanças e decepções...
Ia já no meio a segunda guerra mundial, quando vim para o Seminário da Guarda fazer Filosofia, como então se dizia. Trazia a fama de músico, o que não era muito abonatório, e, ainda por cima, a de pretenso poeta, o que piorava as coisas. Daí a ser rogado para colaborar na revista do Seminário, Vita Plena, foi um passo, e nunca mais parei. O João Saraiva, presidente da Academia, mais tarde Reitor do Colégio Português em Roma e, depois, Bispo de Coimbra, assediava-me por colaboração e ia-me arrancando ingénuos sonetos e pretensas dissertações filosófico-literárias. Uma das proezas em que estive interessado, com outros bons colegas, entre os quais não posso esquecer o saudoso Baleca, foi a construção do ginásio do Seminário, na perna inacabada voltada a sudoeste, e que estava destinada a quartos e salas de aula. Lançada a ideia, Monsenhor Carreto convenceu D. José Matoso a aceitar a alteração do plano de construção, e o ginásio lá se fez e lá está. Nunca esquecerei a estreia do palco, com a representação do drama “Tarcísio” e os cenários do inesquecível Baleca.
Tive professores magníficos que nunca esquecerei. Fui ordenado sacerdote, com mais seis colegas de curso, em 29 de Julho de 1951.

A Guarda: E o percurso como sacerdote?

Geada Pinto: Primeiro, coadjutor do P. Isidro Gomes da Silva, na Guarda. Foi uma tarimba exigente, com um padre muito ordenado, mas amigo. Ao mesmo tempo, fui professor de Gregoriano, no Seminário. Aliás, dois anos antes, depois da saída para Roma do meu querido mestre Dr. Mendes Fernandes, durante os dois últimos anos de Teologia, tinha ficado professor de música dos meus colegas-alunos de Filosofia. Terminada a coadjutoria na Guarda, fui prefeito e professor no Seminário do Fundão, tendo, um ano depois, sido destacado para a Covilhã, com a missão de ajudar o P. Andrade, na Conceição, e dinamizar o Congresso Mariano que iria decorrer naquela cidade em 1954.
A seguir, como o Dr. Alberto Dinis da Fonseca andava a ficar exausto e D. João de Oliveira Matos se mostrava muito preocupado, D. Domingos da Silva Gonçalves mandou-me para Outeiro de S. Miguel, para ajudar. Ali, comecei a ser pau para toda a colher, embora estivesse a renunciar a um gosto que sempre tivera, e me fora acalentado, de prosseguir estudos de música sacra, em Roma. O Dr. Alberto era professor e director da Escola Regional, fazia o “Amigo da Verdade” e ia, todos os dias, para a Guarda, onde tinha uma banca de notário e advogado. D. João visitava as casas da Liga dos Servos de Jesus, promovia retiros e encontros com as pessoas mais responsáveis na Obra. Ambos começavam a acusar o peso do trabalho e dos anos e mostravam claramente que contavam comigo para prosseguir o trabalho de que tinham sido cabouqueiros. Foi esta confiança que me apegou à Obra do senhor D. João e aos sonhos do Dr. Alberto. A meada que eram as suas vidas caiu-me no colo, para eu a ir dobando. Escola, “Amigo”, dinamização das actividades da Liga, centenas de retiros, festas, e, por fim, também a paroquialidade de Arrifana, começaram a ser, e foram sempre, a leira do meu trabalho que, sendo bastante diversificado, nunca deixou de estar no meu percurso como sacerdote.

A Guarda: E como professor?

Geada Pinto: Como já referi, comecei a ser “professor” ainda nos tempos de aluno do Seminário. Desde que vim para o Outeiro, fui professor de quase tudo, na Escola Regional; fui também professor de Canto Coral, na Escola Industrial e Comercial da Guarda e ajudei o saudoso Dr. Sanches de Carvalho a fundar o Centro Cultural da Guarda, onde fui, igualmente, professor de música. Na Guarda, também dinamizei, durante mais de quinze anos, os cursos de preparação para o matrimónio, em que contei com explêndidas equipas de leigos empenhados.

A Guarda: Como apareceu a sua ligação ao Outeiro de S. Miguel?

Geada Pinto: Quando D. João de Oliveira Matos celebrou bodas de prata episcopais, a diocese promoveu-lhe uma grande homenagem. No Seminário, também quisemos participar nessa homenagem e eu, ainda seminarista, coordenei um número da nossa Revista, Vita Plena, com abordagem à figura e à Obra de D. João. Lembro-me de ter feito a primeira história da Liga dos Servos de Jesus, com os elementos que consegui recolher e que tiveram algumas imprecisões, fruto dos verdes anos. Além disso, uma irmã minha tinha ingressado na Liga dos Servos de Jesus e eu, ainda garoto, quis ir ao Outeiro de S. Miguel para “ver o que era aquilo”. Depois, os seminaristas de então costumávamos ir ao Outeiro, porque tínhamos feriado no dia de anos do sr D. João e tudo isso foi criando laços.

A Guarda: Como analisa o actual sistema de ensino?

Geada Pinto: Penso, muito sinceramente, que é péssimo: péssimo na elaboração dos currículos disciplinares, péssimo na falta de exigência aos alunos, o que dá a impressão de que o ministério da Educação só pretende trabalhar para as estatísticas, péssimo na degradação da figura do professor, sobretudo nos últimos anos em que, nas próprias universidades que os formam, deixou de haver exigência e, por conseguinte, excelência, péssimo na relação ministério-professor que transformou os docentes em bodes expiatórios, sem autoridade, quase simples funcionários que só têm obrigação de preencher inúteis papéis.

A Guarda: Como define a Escola do Outeiro de S. Miguel?

Geada Pinto: A Escola Regional Dr. José Dinis da Fonseca foi fundada pelo Dr. Alberto, na Cerdeira, e recebeu o nome de um tio seu, desembargador e professor universitário em Coimbra. Funcionava na própria casa do desembargador. Quando o Dr. Alberto comprou a Quinta da Pombeira, que baptizou de “Outeiro de S. Miguel”, começaram a funcionar aqui as “Oficinas” e a “Escola”. Tratava-se de uma escola de referência que teve sempre, realmente, a preocupação de educar. Passaram pela Escola Regional do Outeiro milhares de alunos que foram, na vida pública e profissional, figuras de relevo. A princípio, destinava-se apenas a alunos internos. Depois, com o crescimento urbanístico da Guarda, houve necessidade de abrir o ensino a alunos externos, porque o Outeiro deixou de ser uma ilha. Alguma exigência e um acompanhamento de maior proximidade aos alunos fizeram com que a procura desta Escola aumentasse, não sendo estranho, penso eu, o reconhecimento de que se trata de uma Escola de inspiração cristã.

A Guarda: Como é que concilia a vida no Outeiro de S. Miguel com a de pároco de Arrifana?

Geada Pinto: A Arrifana é uma paróquia rural, mas com características quase urbanas, dada a sua proximidade com a cidade. Depois, a freguesia de Arrifana tem um certo orgulho no Outeiro, porque à volta do Outeiro se concentra já uma grande parte da sua população que também frequenta, na igreja do Outeiro, os actos de cultos. Embora a minha actividade no Outeiro requeira mais tempo e maior presença, como a sede da freguesia está a dois minutos, mantenho com todos uma ligação frequente e amiga, dado o meu envolvimento nas actividades culturais e assistenciais ali mantidas.

A Guarda: O Jornal “Amigo da Verdade” continua a ter muita aceitação?

Geada Pinto: O “Amigo da Verdade” é um jornal de características populares que lhe foram impressas pelo fundador e que eu procuro manter, ao longo dos muitos anos em que tenho sobre ele responsabilidades. Julgo que o semanário continua a ter muita aceitação, dadas as suas características. Tem os problemas de toda a imprensa regional que não disponha de suporte empresarial, mas penso que investir materialmente num jornal deste tipo é também investir no apostolado. Além disso, as edições regionais, com grande aceitação nos países da diáspora portuguesa e até nas nossas antigas colónias, fazem dele um jornal familiar que se espera, todas as semanas, “para vermos o que aconteceu na nossa terra”.

A Guarda: Como é que vê a actual falta de padres na Diocese da Guarda?

Geada Pinto: Eu não sei se há falta de padres na diocese, pois, com muita alegria, dou-me conta dos jovens que ultimamente vejo avançar para o sacerdócio. É impensável que a vida paroquial continue a organizar-se como até há pouco tempo em que praticamente cada paróquia, pequena que fosse, tinha o seu pároco. Há que repensar uma Igreja menos eclesiástica e com leigos mais participantes. Além disso, terão que ser redefinidas as estruturas paroquiais, com unidades paroquiais alargadas, como já se vem fazendo, aqui e ali, com padres não forçosamente adstritos a esta ou àquela paróquia mas libertos para o serviço pastoral. Cada comunidade cristã suscita nela os padres de que precisa.

A Guarda: Como é que ocupa, actualmente, o seu tempo?

Geada Pinto: Não tenho tempo para me aborrecer! Numa instituição como a que labora no Outeiro de S. Miguel, com Escola a vários níveis, desde o pré-escolar, Oficinas de Tipografia, Encadernação, Carpintaria e Serralharia, quinta com grande actividade agrícola e criação de animais, serviços de manutenção, há que prestar muita atenção a tudo, para que nada falte, e proporcionar a cada responsável em cada sector o correcto desempenho das respectivas tarefas. Tive sempre excelentes, embora apagados, colaboradores. Depois, sou padre: não me canso de rezar, de compor música litúrgica ou outra, de ler, de ouvir as pessoas que precisam de mim. É uma vida. E pode crer que sou feliz.

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