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Arquivo: Edição de 19-11-2009

SECÇÃO: Sociedade

Pastor tem más recordações de uma experiência de trabalho em Espanha

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Guardador de cabras às portas da Guarda

José Neves é pastor. É natural de Vale de Estrela e guarda um rebanho de 20 cabras que apascenta nas redondezas da Quinta do Bispo, localizada entre Vale de Estrela e a cidade da Guarda, ali para os lados do Torrão. Tem 53 anos, é solteiro e garante que “na parte da agricultura” sempre fez “um bocadinho de tudo”.
“Sempre trabalhei no campo e agora calhou ser pastor”, contou o homem de figura esguia, enquanto guardava os animais que “há cerca de um ano” são a sua companhia diária. “Duas cabras são minhas e as outras são da minha irmã”, esclareceu prontamente, explicando que as “cabritas são mais fugidias que as ovelhas e um homem precisa de andar sempre com o olho em cima delas”.
As “cabritas” pastam em redor da Quinta do Bispo e “de vez em quando” vai “um bocadito para mais longe”, sempre acompanhado pelos três cães.
José Neves contou ao Jornal A Guarda que em 2007, aceitou um convite para trabalhar em Espanha “na lenha e na apanha da cereja” mas foi “explorado” e nunca mais quis sair do país.
Recrutado por indivíduos de etnia cigana para trabalhar no país vizinho, recorda que “não me deram o que me pertencia e tentei fugir mas não consegui chegar a Portugal”. “Os gajos [angariadores de mão de obra portuguesa] deram conta que eu tinha fugido, vieram à minha procura, localizaram-me em Fuentes de Onõro, perto de Vilar Formoso, e levaram-me outra vez para lá”, referiu.
Disse que os “patrões” não lhe bateram nem o trataram mal “só que não me deram o ordenado que tinham prometido. Não me maltrataram fisicamente, só no ordenado é que cortaram. Por exemplo, prometeram-me 100 e só me deram 40”.
O pastor relatou que aqueles que o levaram para o país vizinho, para trabalhar na zona de Salamanca, “eram vigaristas e tinham lá mais portugueses a trabalhar”.
“Eu consegui vir para casa porque acabou a campanha. Os outros também vieram, mas enquanto a campanha durou, ficámos lá”, salientou, acrescentando que por ter sido “tão maltratado, nunca mais para lá fui”.
Entretanto, após ter tentado a fuga, disse que passou a ser tratado de maneira diferente “e todos os dias tinha a pinguinha [o vinho] e a comida já era melhor. Desde essa altura que passei a comer com eles [aqueles que o levaram] e já não comia ao pé dos outros trabalhadores. Também me compravam aos dois volumes de tabaco de cada vez”. “Éramos uns 12. Todos daqui da zona, uns de Foz Côa, outros do Sabugal, das Freixedas (Pinhel), era tudo malta daqui destes lados, mas os outros não tinham a liberdade que eu tinha. Posso até dizer que, por fim, já era praticamente o chefe daquela malta toda”, referiu, salientando que quando regressou de Espanha, onde esteve “quase três meses” trouxe “200 e tal contos”.
José Neves adiantou que os mesmos homens que o levaram em 2007 já o convidaram “várias vezes” para regressar mas nunca mais aceitou o desafio. “Se a coisa corria bem, ainda para lá voltava, assim não”, justificou, peremptório, o declínio dos convites.

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