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A Igreja da Misericórdia
Bem no centro da cidade da Guarda, inconfundível, ergue-se o maravilhoso templo da Misericórdia. Se é verdade que a Santa Casa da Misericórdia há mais de quinhentos anos que marca a vida da sociedade egitaniense, de igual forma, embora de edificação um pouco mais recente, a Igreja da Misericórdia tem sido palco de acontecimentos, que retratam o sentir do povo desta terra cristã. As solenidades da Semana Santa que despovoavam muitas terras em redor, eram momentos que se não esqueciam na vida simples e pobre das gentes da Beira, mas tão rica no seu sentir e na sua religiosidade. Era dela, de uma das suas torres, a da direita, que desde 1879 o alarme ou aviso eram dados para todos e em particular para os Bombeiros Voluntários. Era ali, que num momento de aflição, talvez por causa de algum incêndio tenebroso, que toda a cidade se reunia para ajudar, mais não fosse, a caranguejar água de um poço ou chafariz. Nela, entraram os mais humildes, talvez-descalços e rotos, mas também entraram os mais ricos, com as suas vestes opulentas, e mesmo a Família Real, que aqui foi recebida com toda a pompa e entusiasmo. Afinal, havia e há, nesta casa de misericórdia, lugar para todos!
Um pouco de história
A Igreja da Misericórdia, mandada construir por Simão Antunes de Pina encontra-se edificada num local desde sempre cobiçado, quer pela sua exposição soalheira, quer pela planura do terreno, quer pela proximidade da muralha protectora. Ali teria sido erguida a segunda Sé, dedicada ao culto de Nossa Senhora da Consolação, mandada construir por D. Sancho II. No período das guerras com Castela, como a Sé ficasse a pouco mais de cinquenta metros da muralha, inviabilizando assim uma defesa eficaz da cidade, o rei D. Fernando, por uma questão estratégica, mandou destruí-la, o mesmo acontecendo ao convento de Santa Clara. A construção da Igreja da Misericórdia naquele lugar, fora de portas, é um símbolo no desenvolvimento da cidade, pois marca o seu avanço definitivo para fora das muralhas.
A Igreja da Misericórdia na Arte
A Igreja da Misericórdia, de estilo barroco, é vasta, e apresenta uma elegância e harmonia das suas proporções, que nem a pouca visibilidade, dada a proximidade do casario que a cerca, consegue esconder. A fachada, de rigorosa simetria, em que o branco da cal sobressai e faz realçar o escuro do granito dos cunhos e das esculturas, não deixa de nos surpreender.. Tem um maravilhoso frontispício, ladeado por duas elegantes torres sineiras, com cornijas salientes, óculos, janelas e postigos de avental, e rematadas por cúpulas em forma de pirâmide. Sobre a porta de entrada, de arco abatido, sobressai o escudo de armas de D. João V. Interessante, também, é o baldaquino, assente sobre duas colunas, onde se encontra a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia, em jaspe. No interior, também belo, destacam-se as cantarias bem lavradas, nomeadamente o arco sobre o qual assenta o coro, e os altares e púlpitos, com esculturas e talhas muito apreciáveis. No século XVIII tinha cinco altares, tendo no mor a imagem, já então muito antiga, de Nossa Senhora da Consolação e que hoje se encontra no Museu da Guarda; o colateral, do lado do evangelho, de Cristo crucificado e do mesmo lado, o de Nossa Senhora da Conceição; o colateral, do lado da epístola, com a imagem de Santa Ana, e no corpo da igreja, do mesmo lado, a imagem de S. Brás. Na capela-mor, existe um túmulo, com uma estátua jacente em granito, com uma interessante inscrição, que nos diz ser de Simão de Pina, o fundador da igreja. A data (1611), não condiz com a data da sua morte (1594), o que levou a grandes interrogações. Também o facto de haver várias lápides de sepulturas, viradas ao contrário, isto é para a porta principal, suscitou algumas dúvidas. Hoje, os estudos entretanto feitos, parecem esclarecer o assunto. A data existente no túmulo corresponde afinal à transladação do cadáver e não á morte de Simão de Pina, e a igreja actual é, afinal, uma reconstrução de uma outra ali existente e da mesma invocação. No adro da igreja houve até meados do século XX um cemitério, conhecido por Cemitério das Malvas. Foi destruído, embora já estivesse desactivado há muito, quando, em 1956, se procedeu ao alargamento da rua Vasco da Gama. Já antes, quando se fez e ampliou o largo em frente da igreja, e se fez a estrada municipal que deu origem à actual rua Vasco da Gama, descalçou-se demasiado a torre sineira, e esta teria ruído se com rapidez lhe não tivessem “acudido”. Pela sua beleza, pelo seu simbolismo, o seu estilo e as suas linhas, foram seguidas, com maior ou melhor brilhantismo, por muitas igrejas da região. Destas, uma das que mais se destaca, é indiscutivelmente, a de Videmonte, no concelho da Guarda. Nessa aldeia serrana, então uma terra isolada do resto da região, até custa a acreditar que tenha sido construído um edifício tão elegante. No entanto, diz-se por lá, que os sinos da Igreja da Misericórdia foram “desviados”, pois eram para ser os da igreja de Videmonte. Uma coisa me entristece e que quase me angustia: Como é possivel que sendo um templo tão belo e tão marcante, não saber quem o construiu, quem foram os homens que o ergueram, quem foi o seu arquitecto! Francisco Manso
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